Relacionado à necessidade de nos desenvolvermos como seres humanos, de forma a podermos estar em pontos cada vez mais altos da Montanha, é preciso que possamos viver em patamares mais elevados de existência, conforme indicado em artigos anteriores. E isto implica em passar a experenciar a vida e suas possibilidades de forma alternativa ao que fazemos, em nova perspectiva. Paralelamente a todo este conjunto de experiências, temos que desenvolver em cada um de nós a consciência do que representa a nossa inserção histórica dentro do processo de desenvolvimento humano, em outras palavras, a consciência do que é ser humano e qual a perspectiva para o nosso futuro.
Apesar de nos acreditarmos na vanguarda de tudo que já existiu no mundo, função em parte do espantoso desenvolvimento tecnológico que alcançamos como civilização, é preciso que tenhamos consciência de que o nosso desenvolvimento como seres humanos na história não se deu de forma contínua e linear. De fato, é razoável supor que em determinadas dimensões do existir humano, civilizações passadas avançaram muito mais do que nós temos feito, ainda que o resultado desta caminhada esteja adormecido.
A arrogância em relação ao passado é decorrência da nossa aparente supremacia, e é portanto natural. É ela que nos faz olhar para o passado com certo desdém, com um sentimento de que tudo nele é “atrasado”. Mas para que possamos construir um futuro viável é preciso mudar de postura, é preciso que se assuma o que chamamos de HUMILDE DÚVIDA, aquela que fundamentalmente nos leva à perspectiva da curiosidade, possibilitando desta forma a realização do trabalho que precisamos levar a efeito para darmos o “próximo passo”.
Vale para o desenvolvimento deste sentimento, da HUMILDE DÚVIDA, a leitura da “Carta aos Reitores das Universidades Européias”, escrita pelo escritor / pensador / dramaturgo francês Antonin Artaud (1896 – 1948). Artaud viveu no limiar do seu tempo, tendo passado muitos anos internado em Hospitais Psiquiátricos, aonde foi submetido inclusive a incontáveis sessões de eletrochoques, naquela época tratamento de vanguarda para tratamento de “loucos”.
Assim ele escreve:
“Senhores Reitores,
Na estreita cisterna que os Srs. chamam de “Pensamento”, os raios espirituais apodrecem como palha.
Chega de jogos da linguagem, de artifícios da sintaxe, de prestidigitações com fórmulas, agora é preciso encontrar a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, mas um guia para o Espírito perdido no seu próprio labirinto. Além daquilo que a ciência jamais conseguirá alcançar, lá onde os feixes da razão se partem contra as nuvens, existe esse labirinto, núcleo central para o qual convergem todas as forças do ser, as nervuras últimas do Espírito. Nesse dédalo de muralhas móveis e sempre removidas, fora de todas as formas conhecidas do pensamento, nosso Espírito se agita, espreitando seus movimentos mais secretos e espontâneos, aqueles com um caráter de revelação, essa ária vinda de longe, caída do céu.
Mas a raça dos profetas extinguiu-se. A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, dos seus tribunais, das suas universidades. O Espírito congelado racha entre lâminas minerais que se estreitam ao seu redor. A culpa é dos vossos sistemas embolorados, vossa lógica de 2 mais 2 fazem 4; a culpa é vossa, Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o Espírito. O menor ato de criação espontânea e um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.
Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?
Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?
Os Senhores nada sabem do Espírito, ignoram suas ramificações mais ocultas e essenciais, essas pegadas fósseis tão próximas das nossas próprias origens, rastros que às vezes conseguimos reconstituir sobre as mais obscuras jazidas dos nossos cérebros.
Em nome da vossa própria lógica, voz dizemos: a vida fede, Senhores. Olhem para seus rostos, considerem seus produtos. Pelo crivo dos vossos diplomas passa uma juventude abatida, perdida. Os Senhores são a chaga do mundo e tanto melhor para o mundo, mas que ele se acredite um pouco menos à frente da humanidade.”
Enxergar a relatividade da realidade em que se vive é um grande desafio mas também visão de extremo poder de mudança, de movimento. É ela que nos abre a possibilidade de enxergarmos a experiência no mundo como algo passível de ser vivido de forma alternativa, diferente da que vivemos atualmente. Lembrando do nosso navio, o mundo, que ruma para seu destino, hoje, mais do que nunca, é como se todos estivéssemos vivendo “presos” nos andares inferiores do mesmo, cegos, impedidos de enxergar o horizonte, este cheio de possibilidades.
DUVIDAR HUMILDEMENTE do que acreditamos ser a realidade, acreditar que pode existir um horizonte repleto de alternativas, e finalmente, buscar uma nova forma de entender e viver o mundo, é processo mais do que necessário para que a história da humanidade, do planeta e do Universo, para alegria de todos nós, possa dar o “próximo passo”.
Acredite nisto, exercite este humilde duvidar e descubra o poder desta postura em sua vida!
Abraços
Walter
Walter