Quando jovem, fã de Chico Buarque, gostava de ouvir a música “Homenagem ao Malandro”, de 1978, na qual Chico lamenta tempos idos, cantando “.... eu fui a Lapa e perdi a viagem porque aquela tal malandragem não existe mais”. Por razões similares, imaginei, e por ser dúvida que não conseguia tirar da cabeça desde o evento do último sábado em São Paulo, resolvi buscar o significado da palavra MARGINAL. E a razão para esta busca reside no fato de que esta palavra, quando utilizada no contexto sociológico, ou seja, da convivência humana, vem sempre carregada de um sentimento muito negativo. A minha intenção, portanto, foi dupla, de um lado buscar entender a razão desta negatividade automática e de outro, buscar as bases para promover o RESGATE SAUDÁVEL da mesma, ação para a qual remete o título deste artigo.
Ontem, na busca pela palavra MARGINAL junto ao pai dos burros, o dicionário, encontrei o seguinte texto na rubrica sociologia: “diz-se de pessoa que vive entre duas culturas em conflito”. E na extensão deste, por derivação, “que vive à margem do meio social em que deveria estar integrado, desconsiderando os costumes, valores, leis e normas predominantes nesse meio; delinqüente, vagabundo; mendigo”. Bingo, havia encontrado a razão do meu desconforto!
O significado sociológico principal, potencialmente de caráter positivo, simplesmente desapareceu, por alguma razão, ficando apenas sua derivação negativa. Assim, quando nos deparamos com uma referência à pessoa MARGINAL, automaticamente associamos a esta uma imagem negativa no nível da delinqüência, do que é fora da lei, coisa típica de vagabundos, mendigos, assassinos ou terroristas, estes últimos atualmente em destaque na mídia internacional.
Por outro lado, de forma sintomática, não associamos a imagem de um CORRUPTO à de um marginal, provavelmente por esta prática estar disseminada em todo tecido da sociedade. O corrupto, neste sentido, tem sua imagem muito mais associada àquele novo malandro, segundo cantado por Chico Buarque, substituto daquele saudoso malandro da Lapa Carioca.
Mas alguns outros fatores podem também corroborar esta tendência que nos faz associar a marginalidade à criminalidade. Hoje, principalmente no mundo ocidental, não conseguimos mais imaginar uma pessoa que viva entre duas culturas e que, portanto, por esta razão seja marginal. Até o desaparecimento da antiga União Soviética, a dicotomia ideológica ainda era questão de importância, assombrando aqueles que acreditavam ou disseminavam a idéia de que comunistas comiam criançinhas. Mas a queda do muro de Berlim de certa forma sacramentou o fim desta dicotomia, transformando o mundo em uma massa única e sem graça ainda que disforme. Restaram no cenário mundial alguns países ditos comunistas, entre eles Cuba e China. Cuba, no entanto, já não é considerada como exemplo com peso ideológico e a China, para espanto geral, acabou abraçando de forma apaixonada as práticas do CAPITALISMO. Do comunismo propriamente dito, restaram apenas a elite do poder e a burocracia do sistema político, diga-se de passagem, fator facilitador da transformação econômica do país, já que decisões potencialmente polêmicas e impopulares são tomadas em rituais simples e rápidos, a moda do antigo comunismo, ou seja, sem qualquer oposição. Desta forma, evitam-se as perdas de tempo com os demorados trâmites requeridos para construção dos consensos, estes fundamentais e exigidos nos países democráticos.
Por outro lado, dentro do sistema econômico que domina o mundo atual, e isto coisa espantosa, movimentos que nascem com pretensões marginais, são todos eles engolidos pela mecânica do sistema, sempre que passíveis de se transformarem em mercadorias, que ao invés de obstacularem o avanço das engrenagens do mundo, as alimentam. Não importa o que seja, o importante é que seja potencialmente consumível.
Assim, testemunhamos a morte da ideologia e do marginal que vivia entre suas fronteiras, todos massacrados pela única visão sobrevivente. Novas idéias, de qualquer natureza, por mais interessantes que sejam, passam a ocupar meramente um papel cultural, dentro da visão da diversidade.
Portanto, à marginalidade são jogados atualmente, com a negatividade correspondente, apenas aqueles que ameaçam a “ORDEM”, seja a do seu prédio, do seu bairro, da sua cidade, do seu país ou mesmo do MUNDO. E os xerifes, pelo bem da justiça, sempre estão de plantão. A lei precisa ser cumprida. No caso do mundo, bem conhecidos, estes xerifes são sempre os mesmos, AMERICANOS à frente, trazendo na retaguarda os alegres INGLESES, os reticentes ALEMÃES e FRANCESES e ao final, os RUSSOS e CHINESES, ainda de castigo, não cabendo a eles ainda papel relevante nesta sempre vigilante empreitada POLICIAL.
O fato é que a exemplo dos MALANDROS DA LAPA, já não existem mais os MARGINAIS IDEOLÓGICOS, aqueles que ousavam pensar um mundo diferente, um mundo fundamentado em outra ordem que não esta autoritária e destrutiva em que vivemos. Afinal, se não claro para todos ainda, o fato é que vivemos uma unanimidade entediante, burra e perigosa, mas muito poderosa. Tão poderosa que está conseguindo nos conduzir de forma quase hipnótica rumo a um grande desastre, colocando em risco a nossa própria sobrevivência como espécie no planeta.
Dentro deste contexto de absolutismo burro é que a FILOSOFIA RIBASA vem apresentar seu conjunto de conceitos na forma de fundamentos que deverão ser utilizados para a construção de um mundo novo. E é dentro da lógica deste trabalho que estamos resgatando o significado positivo e saudável para a palavra MARGINAL.
Quando iniciamos as atividades do evento do último dia 04 em São Paulo, período da tarde, sobre o qual fiz alguns comentários no último artigo “Pescaria na Avenida Paulista”, eu solicitei aos participantes que se apresentassem falando um pouco sobre a história da marginalidade de cada um deles. Apesar de assustados pelo primeiro impacto da solicitação, já que utilizando a palavra maldita, após algumas explicações, eles foram pouco a pouco se expressando com maior desenvoltura sobre o tema. E o que mais ouvimos foi: “eu acho que sou marginal desde que me conheço por gente”.
E este foi o grande feito do evento “Gotas de Vapor D’Água – Será você uma delas?”. Nós conseguimos reunir e resgatar um grupo de MARGINAIS SAUDÁVEIS. Eles não são do tipo antigo, aquele da marginalidade IDEOLÓGICA, mas representam um novo tipo. Pessoas que espalhadas pelo mundo, se sentem muito solitárias, muitas vezes perdidas, e que andam procurando incansavelmente seu rumo e destino.
No mundo atual, estes novos MARGINAIS, os MARGINAIS SAUDÁVEIS, sob a ótica da Filosofia Ribasa, têm um perfil todo especial, do qual vou apresentar os pontos principais, apresentados pelos próprios participantes do nosso evento de forma espontânea.
1. Todo MARGINAL SAUDÁVEL sente um vazio na sua vida, um sentimento que não consegue ser preenchido com as atividades e promessas que o mundo apresenta. Em alguns casos, como foi relatado, este sentimento de vazio pode crescer, levando aos conhecidos sintomas de depressão, síndrome de pânico ou outros;
2. Todo MARGINAL SAUDÁVEL tem grandes dificuldades em se enquadrar em qualquer movimento formal, seja ele de caráter religioso ou místico, como as chamadas escolas da NOVA ERA. Muitos deles já tentaram, diversas vezes, o enquadramento, mas depois de um certo tempo, acabam abandonando a iniciativa.
3. Todo MARGINAL SAUDÁVEL é premido por uma sensação de missão, de algo que ele precisa realizar na sua vida. Neste sentido, ele se preocupa com o desperdício de tempo, relacionado à dificuldade de encontrar o seu caminho;
4. Todo MARGINAL SAUDÁVEL sente que existe algo além do que lhe é apresentado pelo mundo. Sabe também que é algo que tem que ser atingido através de esforço, mas solitário, não tem exata noção do que seja.
5. Todo MARGINAL SAUDÁVEL em algum momento pensa ser ele o único responsável pela própria infelicidade, não entendendo a razão de ser ele, presumivelmente, o único peixe fora d’ água, em meio a tanta alegria no mundo.
6. Todo MARGINAL SAUDÁVEL sente uma sede que não é aplacada por nada do que ele conhece ou tem, seja trabalho, dinheiro, casamento ou filhos, enfim, uma sede insaciável e ainda assim, todo MARGINAL SAUDÁVEL busca apenas um mundo melhor.
É com este MARGINAL SAUDÁVEL que a Filosofia Ribasa vai trabalhar, pois é ele o único que pode assumir a responsabilidade representada pela necessidade de construção de um mundo novo. Assim, se você se identificou com o perfil do MARGINAL SAUDÁVEL, entre em contato conosco e junte-se a nós.
Abraços
Walter
