domingo, 30 de janeiro de 2011

O aprendiz e a cama rv 03

Eram sete horas da manhã e para uma platéia ainda sonolenta e meio assustada, pedi que se apresentassem e falassem sobre o significado daquela nova empreitada para a vida de cada um deles. Breves nas palavras, tímidos, o que é natural, sem exceção enfatizaram a relação do Programa com o futuro profissional de cada um deles, tudo de forma meio mecânica, como se texto decorado anteriormente.

Isto foi na última sexta-feira, dia 28/01/2011, quando iniciamos na Ribasa o trabalho com mais um grupo do Programa Aprendiz Legal. Por sermos entre 110 e 120 colaboradores, de acordo com o que define a Lei, selecionamos 06 Aprendizes, sendo 3 meninos e 3 meninas, todos entre 14 e 18 anos, para esta nova etapa. Foi dada prioridade à candidatos filhos ou parentes de colaboradores da empresa, desde que preenchendo os requisitos. Todos deverão estar conosco durante os próximos 24 meses tendo a oportunidade de conviver pela primeira vez em ambiente de trabalho profissional.

Por considerarmos o programa de importância fundamental, coube a mim como líder da empresa, dar as boas vindas com a palestra inicial. O foco seria dar nova perspectiva à experiência que estão iniciando, dentro da visão da FILOSOFIA RIBASA, ou seja, algo diferente do que tradicionalmente encontrariam em qualquer outra empresa.

Por ser a construção do futuro, como haviam afirmado, o objetivo praticmanete comum a todos eles, algo muito vago, podendo abranger um leque muito amplo de variáveis, como primeira intenção quis definir um horizonte mais concreto para fundamentar a experiência que cada um passaria a ter a partir daquele momento.

Questionados sobre quem havia acordado sem ter sido chamado e quem havia arrumado a própria cama antes de sair de casa naquela manhã, todos riram. Foi unânime, ninguém havia acordado sem ser chamado e muito menos arrumado a própria cama. Perguntei também sobre quem sabia cozinhar ou mesmo lavar e passar roupa. Novamente recebi apenas sorrisos marotos. Afinal, este tipo de trabalho, é senso comum, não é próprio de estudantes que almejam vôos profissionaris mas altos, como era o caso.

Mesmo não entendendo bem o que acontecia, já que não esperavam enfrentar aquele tipo de questionamento, estabeleci os objetivos do Programa, quais sejam: que ao final dos dois anos (1) todos estivessem acordando sozinhos sem precisarem ser chamados, (2) que estivessem arrumando as próprias camas e (3) tivessem aprendido a cozinhar e também a lavar / passar a própria roupa.

Mesmo não estando relacionados diretamente ao trabalho com o qual os Aprendizes estarão envolvidos dentro da empresa, o que pode parecer estranho, os objetivos estão vinculados sim à Filosofia RIBASA, que não trata o Colaborador apenas dentro da sua perspectiva profissional. De fato, mesmo sendo aparentemente possível a separação entre o ser integral com seus problemas e o profissional, como preconizam algumas ou a maioria das empresas mesmo que de forma não expressa, dentro da Filosofia RIBASA esta desvinculação não é considerada possível e muito menos incentivada, muito pelo contrário. Por outro lado, por implicar em maior complexidade, esta nova visão da empresa exige envolvimento mais amplo com os colaboradores e seus familiares, o que leva a ação para além dos limites físicos da empresa.

Em 2008, um dos nossos colaboradores, casado e pai de dois filhos, imaginou que sua esposa estava envolvida com outra pessoa, fato que o fez mergulhar em grave crise existencial. Como descobrimos durante o processo, entre outras coisas que provavelmente haviam contribuído para deteriorar seu relacionamento, além da bebida, ele também era usuário de drogas leves. Com o início da crise  automaticamente ele teve sua capacidade profissional afetada, mergulhando em espiral negativa de crise, que sabíamos e pressentíamos, poderia ter fim trágico, como é comum vermos neste tipo de evento nos noticiários da TV.

Naquele momento, na RIBASA, nós já tínhamos o que chamamos de CASA DE DESCANSO, um espaço destinado justamente para manter dentro da empresa colaboradores com problemas, como era o caso. Portanto, ao invés de se perder no próprio sofrimento, mergulhado em um processo com conseqüências imprevisíveis, o colaborador foi incentivado a transformar a empresa, representada por todo o grupo, em seu ponto de apoio e referência. Assim, ao invés de faltar e ficar vagando, ele vinha para a empresa. Só que ao invés de trabalhar, ele ficava dormindo. E todos sabiam que ele estava passando por dificuldades, e neste sentido, havia um sentimento generalizado de apoio, ainda que um grupo bem mais restrito o acompanhasse de forma mais próoxima.

Neste sentido ele pôde expressar a sua dor e também receber apoio, inclusive de pessoas que já haviam passado por situações semelhantes. Todos os seus colegas da empresa, até porque o assunto foi tratado em nossas reuniões coletivas, quase que semanais,  acompanharam o processo, ajudando de uma ou de outra forma. Aos poucos ele recobrou o equilíbrio, deta feita em um novo patamar. A esposa, apesar de convidada, não quis participar do processo e acabou se separando dele de qualquer forma, o que também o fez sofrer. Mas hoje é um homem íntegro, um bom Pai e um excelente Colaborador, verdadeira fonte de inspiração para seus colegas.

Voltando aos Aprendizes, o objetivo da Ribasa quanto a este Programa é promover o desenvolvimento integral dos jovens que receberam esta oportunidade. E desta forma pretendemos prepará-los para que possam enfrentar com serenidade as mais diversas situações da vida, inclusive como esta relatada acima. E mais ainda, pretendemos preparar estes Aprendizes para assumirem papel ativo e positivo dentro do meio em que vivem. E para isto, o desenvolvimento deve ser integral, compreendendo o cuidado e atenção consigo mesmo, como o acordar sem ser chamado, o arrumar a cama e eventualmente o lavar e passar a própria roupa. Eles aprenderão sim os aspectos relacionados com a dimensão profissional da Ribasa, mas mais do que isto, pretendemos que possam engendrar nova perspectiva sobre a vida.
Abraços

Walter

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Na caminhada um novo desafio - rv 02

Há alguns dias venho me ocupando com um novo desafio na área filosófica, esta a grande razão da minha existência. A partir do próximo dia 05 de fevereiro, um dia após completar 51 anos, estarei iniciando um programa semanal na Rádio Mundial em São Paulo.

O programa, que se chamará FILOSOFIA RIBASA – UM CAMINHO PARA TRANSFORMAÇÃO DA SUA VIDA, será transmitido ao vivo dos estúdios em São Paulo, todos os sábados, das 15:30 às 16:00 horas. Apesar de transmitir apenas para a região de São Paulo, em FM e AM, a programação da rádio também pode ser acompanhada em tempo real pela Internet, no site www.radiomundial.combr .

A Mundial é a única rádio no Brasil não ligada a qualquer religião, que dedica toda sua grade de programação a temas ligados à espiritualidade. Não representando a postura da rádio, ficando esta sob a responsabilidade dos Comunicadores contratantes dos espaços, os programas são bastante variados, atendendo um vasto leque de demandas e interesses.

A necessidade de organizar os pensamentos para apresentação do programa, especialmente do primeiro, tem exigido uma ampla revisão dos pontos que tem fundamentado este movimento de trazer a público o que hoje chamamos de Filosofia RIBASA, mas que na verdade, é fruto de um trabalho que sem nome, veio sendo construído com total comprometimento durante mais de 35 anos, chegando a confundir-se com a minha própria vida.

A primeira questão que se coloca é quanto à razão pela qual estou levando a efeito esta empreitada. Lembrei que quando criança, muito pequeno, meus Pais começaram a freqüentar a Igreja da Ciência Cristã ( http://www.cienciacrista.com.br/  ), fundada pela americana Mary Beker Eddy. Por estar muito doente e deprimida, após a perda de seu quinto filho, recém nascido, a única menina depois de quatro meninos, minha Mãe foi buscar conforto e cura para sua tristeza e vazios nesta igreja. Era a primeira vez que eu freqüentava regularmente os serviços de uma igreja e como tal, passei a integrar o grupo da escolinha dominical.  Não esqueço nunca do profundo impacto que vivenciei ao ouvir o relato das histórias da Bíblia. Era como se voltasse a um mundo de vivências que eu reconhecia dentro do meu coração, algo muito familiar.

Não sei até hoje o motivo, mas o fato é que a família acabou se afastando da Ciência Cristã. E mesmo assim, durante muitos anos, minha professora da escola dominical sempre perguntava por mim quando encontrava minha Mãe. Em 1978, quando morava e estudava no Rio de Janeiro, depois de deixar o curso de Engenharia e iniciar o de Filosofia, chegando à Blumenau para minha visita de meio de ano, recebi o recado de que a Senhora Jaspers, nome da minha professora, queria conversar comigo. Intuitivamente já sabia do que se tratava.

Como curadora da Ciência Cristã, naquela fase da sua vida ela trabalhava exclusivamente com doentes. Quando me recebeu, contou da experiência comigo como criança e me comunicou que do ponto de vista espiritual eu tinha uma missão, a de dedicar minha vida ao próximo, ajudando espiritualmente aos necessitados. Como já estava profundamente mergulhado nesta busca, diante das muitas dificuldades que enfrentava, suas palavras soaram como um grande incentivo. Apesar de me oferecer uma série de alternativas, naquele momento com 18 anos eu sabia que ainda NÃO ESTAVA PRONTO PARA O TRABALHO e que eu teria que continuar buscando solitariamente meu destino, a minha missão.

Estando mergulhado no mundo, logo depois, aos 20 anos, casei, tendo sido pai aos 22. Trabalhei como Corretor de Imóveis, tendo vendido alguns dos primeiros lotes do ainda sonho chamado Jurerê Internacional, em Florianópolis, hoje um bem sucedido empreendimento. Fui concursado da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, Florista, Programador de Sistemas de Informática, Gerente de Marketing de Empresa de Cerâmica, Diretor de Usina de Açúcar e Álcool, Diretor de Empresa Distribuidora de Combustíveis, enfim, participei ativamente do mundo que procurava entender e a partir do qual buscava construir uma janela para enxergar um futuro diferente.
Apoiando espiritualmente minha caminhada pelo mundo, entre outros encontrei Gurdjieff e Ouspensky, Louis Pauwels e Jacques Bergier, o misticismo-filosófico da Ordem Rosacruz, a Antroposofia de Rudolf Steiner com suas ramificações na Educação, Agricultura, Gestão e Saúde, o Fausto de Goethe, o Zaratrustra de Nietzsche, além da marcante Poesia de Rumi e Attar, poetas e filósofos Persas.

Na música, envolvido desde muito pequeno, vivi experiência determinante ao participar com 10 anos, como segundo violino, do meu primeiro ensaio na Orquestra de Câmara de Blumenau. Pude vivenciar de forma profunda o significado da palavra HARMONIA, uma experiência que me inspirou a buscar incessantemente o seu sentido maior.

Cigano por essência, como buscador estive sempre procurando, tendo morado em várias cidades e Estados. Sofri muito, procurei silenciosamente... Mas o mais importante é que fui presenteado com verdadeiras jóias, representadas por todas pessoas com quem convivi durante todos estes anos. Elas foram o meu espelho e unicamente através delas encontrei O CAMINHO.

Nos últimos anos, já com os cabelos totalmente brancos, apesar de ainda não totalmente PRONTO, coisa que provavelmente nunca estarei, encontrei o CAMINHO e a PAZ INTERIOR,  e com eles o sentido concreto da minha Missão. Hoje o meu trabalho e a minha VIDA estão direcionados unicamente para o próximo. A janela que consegui construir em meio a todo o peso do mundo, me permitiu vislumbrar e principalmente VIVENCIAR uma nova realidade que já não cabe no meu peito.

Não consigo calar diante das maravilhas que vejo e vivencio. Preciso falar, compartilhar e quem sabe, se DEUS assim permitir, com muita humildade ajudar outros a enxergarem o que vejo. Esta é a proposta que assumo plenamente.

Abraços

Walter

domingo, 16 de janeiro de 2011

A Árvore da Vida e as Sementes - rev 03

Há um senso de futuro, de devir em tudo que nos cerca, em diversos níveis, uma força que impulsiona todos e tudo para a realização. Ainda que como seres humanos possamos não saber e provavelmente não saibamos exatamente o que em ultima instância significa esta realização, os ciclos que envolvem o surgimento, crescimento, maturação e declínio fazem parte da vida, mas não a resumem.

Há poucos dias, convidado por um amigo que já não via fazia bom tempo, participamos, minha esposa e eu, de um jantar. Além de nós, como convidados, estavam também os filhos,  cunhados, sobrinhos, futuro genro e os sogros, enfim, um verdadeiro encontro de gerações.

Reunidos no quintal dos fundos da casa, na chegada fomos recepcionados pela esposa do meu amigo e pelos seus sogros. Ela, uma Senhora nos seus 71 anos, pequena e alegre, com um brilho intenso no olhar, e ele, o sogro, um Senhor de 80 anos, já bastante fragilizado. Logo ao me cumprimentar, comentou que da minha figura só vislumbrava o vulto, já que convivia há alguns anos com problemas sérios de visão, que praticamente o cegavam.

Depois de alguma conversa nos fundos do quintal, sem que ele estivesse presente, foram montadas ali mesmo as mesas para o jantar. Foi neste momento que ele voltou a se juntar a nós, sentando do meu lado, na ponta da mesa. Ao me ouvir afinando um velho violão, já que disposto a tocar algumas canções, ele comentou animado que em tempos passados também ele já dedilhara o violão com alguma destreza, mas que já não o fazia porque não conseguia sequer enxergar.

Depois de afinado o violão, toquei e cantei algumas canções, entre elas ROMARIA, música e letra de Renato Teixeira, embalado por gravação inesquecível de Elis Regina, que guardo como um tesouro no meu coração. Também toquei LUAR DO SERTÃO, praticamente um segundo Hino Nacional, composto por Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco e por último FELICIDADE, de Lupicínio Rodrigues. Todas, com a força das recordações e saudades que despertam, levaram aquele Senhor, de forma contida e silenciosa às lágrimas.

Não se contendo, tomou do violão, e ainda que quase cego, voltou a dedilhar algumas canções, buscando inspiração no seu passado, agora tão distante. Mesmo desafinado, cantou com o coração... e se encontrou. Depois, mesmo sendo alvo da  zombaria dos presentes, as novas gerações, já acostumadas a seus lamentos, contou da sua vida. Deixou a Bahia, sua terra natal, quando jovem, impulsionado pelo sonho de fazer fortuna em São Paulo. Foi ao Paraná, onde constituiu família e tocou sua vida. Em seu emocionado relato tinha sempre voltados seus pensamentos para o passado e a dor de tudo que já não podia fazer. Quanto ao futuro, confessou que aguardava apenas a visita da morte, ainda que temeroso por não conhecê-la. Seu olhar já não conseguia alcançar qualquer futuro.

Pensando bem, para aquele homem, o único sentido da vida está praticamente enterrado no seu passado, em tudo que foi capaz de fazer e realizar. Uma realização que deixou marcas e que hoje, além da zombaria dos que o cercam, traz apenas recordações repletas de saudades, tristeza e lágrimas, além do desejo de partir.

Tocado profundamente, fiquei enternecido. Envolto pelo clima da festa, cenário no qual aquele Senhor era figura secundária, sendo um lamento que não encontrava eco, pensei na vida como uma grande árvore que espalha suas sementes sobre a terra. Levadas pelo vento, pelas águas, pelos pássaros, enfim, mundo afora, todas buscam a própria realização. E para nós seres humanos, este desafio da realização vai além do que imaginamos. Se não sabemos ao certo do que se trata, sabemos ao menos que não é suficiente o conhecimento, a família, os filhos, as posses, pois ainda que tenhamos o mundo, nos últimos momentos, nos resta apenas um sabor amargo de vazio, de falta de potência e capacidade, de falta de futuro, assim como relatado por aquele Senhor.

Nossas realizações nos parecem insuficientes, indicando que seguimos, crescemos, mas que de fato, não conseguimos realizar aquele nosso destino maior, a GRANDE OBRA, como escreviam os Alquimistas. Ficam as lembranças, que ainda e mesmo que ricas, estarão sempre no passado. E quanto ao futuro, apenas a cegueira.

A realização humana é o nosso desafio maior, não aquela tradicional, mas uma outra mais nobre, desafio do espírito. É preciso que nossa caminhada, nossas energias, dons e capacidades, disponibilizadas como presentes, sejam direcionados à subida das montanhas, para alturas sempre maiores. Para que de lá possamos enxergar a profundeza dos vales, o mundo, mas também as alturas, os céus. E que ao final, possamos voar, assim nos transformando em seres eternos, para além do espaço e do tempo e das raízes da terra, este sem dúvida nosso lar atual, mas certamente não nosso destino.

Abraços

Walter

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Caminhão do Circo rv 02

Há poucos dias, já no ano novo, chegando à RIBASA encontrei um caminhão carreta estacionado no pátio da empresa aguardando um carregamento para Goiás. Apesar da cena comum, esta particulamente chamou minha atenção pelo modelo do caminhão, um Scania alaranjado, modelo bem antigo, provavelmente dos anos 70 ou 80.

Lembrei dos tempos em que como Diretor Comercial das Usinas Itamarati no Mato Grosso, 1999 a 2003, era responsável pela venda e distribuição de uma produção anual de 350.000 ton de açúcar e 200 milhões de litros de álcool combustível. Para o açúcar, um dos mais importantes destinos era o mercado de varejo, venda direta para Supermercados e Mercadinhos, em 12 filiais espalhadas pelas regiões Centro Oeste e Norte do país.

Para distribuição aos clientes localizados nas cidades mais próximas à Itamarati, a entrega do açúcar era feita por caminhões da própria empresa, praticamente idênticos àquele estacionado no pátio da Ribasa. Foi quando lembrei que em deterinada oportunidade, conversando com um dos motoristas da nossa frota na Itamarati, ele me relatou que quando entrava em cidades muito pequenas, era comum ver crianças correndo e gritando: “Mãe, mãe..... olha, o caminhão do circo chegou!!!!”. Isto porque até hoje no interior do Brasil, principalmente nas regiões mais pobres, os pequenos Circos Mambembes ainda utilizam estes mesmos caminhões para levarem suas tralhas e equipamentos.

Assim, por curiosidade fui conversar com o motorista do Scania que estava aguardando no pátio da Ribasa. Para minha surpresa descobri que ele mesmo já tinha carregado açúcar para a Itamarati, justamente na época em que eu estava por lá, auxiliando no transporte de transferência do açúcar da Usina para as Filiais, ganhando bom dinheiro, o que, segundo ele, já não acontece mais.

Gastei um bom tempo conversando com ele, e diante da dificuldade relatada, principalmente sobre a sua situação como empreendedor na área de transportes, voltei a refletir sobre a cadeia da economia, principalmente para àqueles que têm seu negócio próprio.

O mundo atual é dominado pelo capital financeiro, que só no Brasil, numa espécie de ciranda para poucos, movimento diariamente mais de R$ 5 bilhões na Bolsa de Valores. E para este capital, e é cada vez maior o número de pessoas ou grupos econômicos que querem viver apenas dentro desta ciranda, compondo esta entidade que todos já conhecemos como MERCADO, só existe um objetivo e foco, o GANHO FINANCEIRO. Vamos raciocinar: para este capital a qualidade do ganho se mede unicamente pelo volume, em outras palavras, a razão do sucesso é mensurada unicamente pelo aumento das margens de ganho, pois de fato, o dinheiro em si não permite qualquer outra mensuração ou realização.

Esta demanda por mais e mais resultados, entenda-se dinheiro, é tão avassaladora que não por mera coincidência os executivos americanos, como também muitos brasileiros, premiados que são com bônus diretamente proporcionais aos GANHOS que geram, passaram a realizá-los de forma muitas vezes não tão legal, origem inclusive da última crise internacional em 2008.

Vejamos o mercado de ações, estas como instrumentos que vinculam as empresas do mundo real ao MERCADO, e que são consideradas como passíveis de compra em função da perspectiva de suas valorizações futuras, resultante de seus resultados financeiros. Sendo esta a lógica, as empresas, principalmente aquelas com ações negociadas nas Bolsas de Valores, a elite no mundo dos negócios, passam a gerir seus negócios com a visão voltada exclusivamente para a geração de GANHOS FINANCEIROS, que tem que ser maiores, cada vez maiores para saciarem e manterem renovado o apetite do MERCADO. 

A partir desta fonte de pressão, muitos executivos que administram empresas, principalmente as maiores e mais conhecidas, passam a perseguir obcecadamente resultados financeiros, utilizando como fonte de ganhos, políticas cada vez mais agressivas de compras e contratações, processos que mantém, em última instância, nosso amigo travado e casado quase que irremediavelmente com seu Scania de Circo.

No ano passado, diante da perspectiva de liderar a implantação de oito PCH’s (Pequenas Centrais Hidrelétricas) em Minas Gerais, realizamos um seminário com diversos fornecedores locais. Em conversas informais, muitos destes empresários relataram que para uma grande empresa Mineira, com quem já tinham longo relacionamento de fornecimento, uma nova era tinha chegado. E para esta nova era, a empresa havia contratado novos compradores, todos de pouca idade e pouca experiência,  que com ganhos vinculados a resultados, passaram a impor impiedosamente novas condições aos fornecedores, muitas vezes inaceitáveis.

E é justamente esta empresa, que prefiro não nominar, que participa do grupo daquelas empresas que apesar de suas práticas devastadoras de negociação com fornecedores, vem à publico vender uma visão de responsabilidade social, ambiental, com ações vinculadas à cultura, educação, meio ambiente, etc.. Projetos estes, inclusive vale lembrar, que são na sua grande parte estruturados com base em Programas de Incentivo dos Governos em diferente esferas, que ao final ainda acabam reduzindo o pagamento de Impostos, ou seja, fazem parte da mesma mecânica do GANHO.

O Circo está montado e o espetáculo não pode parar. Especialista em andar sobre a corda bamba sem qualquer rede de segurança, o mundo vai seguindo de crise em crise, tendo como mestre de cerimônias o DINHEIRO, este sim o verdadeiro deus dos tempos atuais.

Ao nosso amigo do caminhão, praticamente na base da cadeia de fornecimento da economia, não restam muitas alternativas. Provavelmente ele continuará sendo pressionado, tendo que aceitar valores de frete cada vez menores, vivendo no limite do seu patrimônio, inclusive físico, já que obrigado muitas vezes a dirigir noite adentro.

Certamente por muito tempo as crianças vão continuar associando a visão da sua passagem com a chegada do Circo. Até o dia em que já não restará nem mesmo o Circo e possivelmente nem mesmo o espetáculo.

Abraços

Walter

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A Visão de Montanha rv 03

Ainda trago viva na memória a forte impressão que me causou a visão da terra do alto, da janela de um avião há vinte e três anos, quando da minha primeira viagem aérea. As pessoas, as casas, tudo parecia muito pequeno, frágil, como se fosse um mundo de brinquedo. Ainda sob o efeito do impacto, me senti irmanado com tudo e todos que via. As causas, antes tão óbvias e claras, de muitos desentendimentos e conflitos, subitamente deixaram de fazer sentido. Naquele momento, como privilegiado, tive uma visão muito ampla do mundo e me dei conta da estreiteza do vale em que de um modo geral vivemos mergulhados. Subitamente me envergonhei de mim mesmo, da minha humanidade menor. Durante algum tempo ali olhando pela janela, fiquei chorando a dor dos meus limites.

Os anos se passaram e as viagens de avião, sempre mais freqüentes, deixaram de causar aquele primeiro impacto, caindo na mecanicidade. Mas a experiência foi um marco na busca que já vinha empreendendo há bom tempo, ou seja, de buscar viver em um patamar de existência em dimensão mais ampla. E foi com aquela experiência que passei a consolidar o conceito de VISÃO DE MONTANHA, ou seja, a abordagem da realidade a partir de patamares sempre mais elevados, a partir dos quais as diferenças eventualmente conflitantes que existiam nos patamares inferiores, simplesmente passavam a ter novo sentido e inteligibilidade.

Este conceito é bastante amplo e pode ser aplicado em diversas áreas. Na TV por assinatura, por exemplo, dentro da mesma linha, em canais como National Geographic, History Channel e Discovery Channel, e mesmo eventualmente na Televisão aberta, são veiculados programas que trazem implícitos o mecanismo de Visão de Montanha. Com o desenvolvimento dos diversos ramos da ciência, os conhecimentos acumulados são trazidos a público em forma de documentários bastante interessantes. A origem do Universo, a formação das Galáxias, a formação e evolução do nosso planeta, além da história das civilizações e impérios. Todos estes são temas abordados por estes programas que vão nos conduzindo intelectualmente a novos patamares de entendimento do mundo que nos cerca, inclusive da própria história, pois de um modo geral eles remetem suas análises e argumentos tanto ao passado quanto ao futuro.

A possibilidade da Visão de Montanha, portanto, devemos em grande parte ao desenvolvimento científico, que como método, vem disponibilizando conhecimento como nunca antes na história humana. Mais do que qualquer outra coisa, somos a civilização do conhecimento e da tecnologia. Praticamente não restaram culturas à margem desta poderosa influência e realidade, ou seja, neste aspecto somos de fato a primeira civilização globalizada na história do planeta. E assim, sem sairmos do conforto dos nossos lares, hoje temos acesso a uma visão do Universo, do Planeta e de nós mesmos seres humanos que era inimaginável há 30 anos. Uma oportunidade única para desenvolvermos o que chamo de VISÃO DE MONTANHA.

Mas se por um lado conseguimos enxergar até a origem do Universo, sua história, o que nos coloca potencialmente em uma dimensão especial de vida, por outro lado somos escravos de uma realidade muito pequena.  O mundo se tornou estreito e obsoleto frente a tudo que sabemos atualmente. Trocamos nosso tempo, conhecimento e capacidade por dinheiro, em trabalhos que nem sempre representam algo significativo para nós. Posicionados em alguma parte da engrenagem que roda como se fosse a própria realidade, absoluta, somos cooptados por um sistema que se transformou em tirânico, apesar de todo seu glamour. 


As questões que nos são colocadas como desafios pela VISÃO DE MONTANHA, não compõem a agenda de prioridades do establishment, este preocupado apenas com a mecânica da economia, como no caso da última crise financeira internacional, em que governos enviaram cheques para que as pessoas voltassem a consumir, ou seja, para que voltassem a fazer a engrenagem da economia rodar. 


E este é o mote, ou seja, o CONSUMIR, algo que aceitamos, individualmente, como compensação para todo o trabalho que muitos consideram sem sentido, para o stress, a depressão, enfim, todas as mazelas que nos afligem no dia a dia. Vivemos na expectativa do próximo bem que vamos adquirir, do próximo carro, casa de praia, próxima festa ou balada, a viagem internacional sonhada ou as tão concorridas férias de verão. Estas últimas, assim como os feriados, transformaram-se em palavras sagradas, foco de atenção de milhões de pessoas durante meses e meses de planejamento, gerando ao final o conhecido caos em estradas e aeroportos.

É este estilo de vida consumista que nos mantêm presos ao que é menor em nós mesmos. No mundo atual somos incentivados à competição, ao egoísmo, à ganância, à ambição, impossibilitando o alinhamento com objetivos maiores. No frenético ritmo do consumo nos apoiamos na esperança de que a próxima aquisição, de bem tangível ou não, traga a tão necessária paz de espírito, a chamada felicidade. Mas o que acabamos experimentando com freqüência é a ressaca do final das férias, da volta ao trabalho após a última viagem, em outras palavras, um grande vazio existencial.

Temos que ampliar a dimensão da nossa existência individual. Se já o fazemos a nível do conhecimento, é preciso que esta realidade sirva como inspiração e impacte o mundo das relações econômicas e sociais. Temos que pensar uma nova ordem, que coloque a humanidade em nova perspectiva frente a seu destino. E para que isto seja possível, como primeiro passo temos que desenvolver em cada um de nós, a VISÃO DE MONTANHA, aquela que nos coloca em perspectiva frente aos desafios colocados pelo futuro, ou seja,  da construção de um novo navio, um novo paradigma.

Abraços

Walter

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Novo Navio rv 02

No último artigo comparamos a situação do mundo atual a do Titanic em sua primeira e derradeira viagem. A escolha desta comparação deve-se ao fato de que muitos percebem que o mundo, a exemplo do Titanic, mantidas as condições de navegabilidade e rumo, também caminha para um desastre. E mais, que mesmo já tendo sido identificado o Iceberg no horizonte, não se vislumbra uma real possibilidade de mudança de rumo, alternativa para evitar a colisão e o desastre.

O exemplo do navio é bastante adequado para entendermos a mecânica que impulsiona o mundo rumo a seu destino e também nosso papel como seus passageiros. Para referenciarmos o exemplo e ampliarmos a percepção, é interessante lembrarmos que o planeta terra, neste caso considerado como o grande mar, já foi navegado por navios muito distintos. E mais, que em épocas passadas da história da humanidade, estes inclusive coexistiram. Basta lembrar de um lado as culturas que dominavam as Américas e de outro as que dominavam a Europa no século XV. Eram totalmente diversas, mas acabaram disputando espaço no que se transformou na conquista e dominação dos povos Americanos pelos Espanhóis.

Assim como os navios reais, as culturas ou civilizações muitas vezes tem diferentes destinos. Algumas podem simplesmente naufragar, sem deixar rastros. Outras podem ser dominadas, como foi o caso das culturas americanas, tendo seu destino redefinido, e outras ainda podem ter vida longa, mudando de rumo, mais ou menos pacificamente, na medida em que o tempo passa.

Caracterizadas pelo compartilhamento de um conjunto de percepções e regras bem definidas, estas compondo o que chamamos de paradigma (Thomas Kuhn – A estrutura das Revoluções Científicas), suficientes para permitirem a vida estruturada em comunidade, as culturas tem sempre um destino, caracterizado pela explicitação e desdobramento de seus fundamentos, no que acabamos chamando de  história, esta caracterizada sempre posteriormente, em visão retrospectiva.

A cultura ou navio, no entanto, não existe como entidade autônoma, independente de seus passageiros. Na verdade  são os seus passageiros, ou melhor, nós, que ao compartilharmos em grupo as percepções e crenças do que o mundo é, ao assumirmos como nossas a realizações de suas promessas, tudo isto de acordo com os fundamentos ditados pelo paradigma,  e do espaço e funções que ocupamos no seu Universo, damos vida e sustentação ao navio da nossa cultura.

E assim, o Titanic vai navegando sem reconhecer os riscos no horizonte, ou minimizando seus potenciais impactos. E isto se explica muito bem, pois o que chamamos de realidade nada mais é do que a explicitação dos alicerces que sustentam determinada cultura. Desta forma, alterar o rumo do navio significaria colocar em risco seus próprios alicerces, algo praticamente impossível, principalmente para aqueles que desfrutam das vantagens e do poder dentro deste navio específico, isto independentemente dos risco futuros. É como se estes defensores do "status quo" vivessem dentro das áreas nobres do navio; suas suítes, lindos restaurantes, enfim, pudessem usufruir sempre do bom e do melhor.

E assim as coisas caminham, sempre mantendo-se o rumo e as atividades no navio. Dois fatos históricos chamam a atenção neste sentido. O primeiro, provavelmente parte do folclore, diz que mesmo enquanto afundava, a orquestra do Titanic continuou tocando até o último momento. E no Brasil, em cena quase similar, no tempo do Império, quando o mesmo já tinha o seu fim praticamente decretado, em 09 de novembro de 1889, a nobreza promoveu na Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, a festa mais notável da época, depois conhecida como “O último Baile do Império”.

Sabem aqueles que já estiveram a bordo, que nos navios transatlânticos, após o embarque, a primeira atividade coletiva obrigatória é a simulação e treinamento de passageiros para a eventualidade de um naufrágio. Mas para um eventual naufrágio do mundo em que vivemos, nenhum de nós recebe qualquer tipo de treinamento. Ou seja, em acontecendo, restará o famoso "salve-se quem puder".

E nós não somos treinados para esta possibilidade pois assim como no caso da orquestra do Titanic e do Baile da Ilha Fiscal, somos convencidos de que as tormentas, tempestades ou mesmo incêndios, ou seja, as crises, como a última de 2008, serão superados e que todos voltaremos a comer tranquilamente o nosso caviar tranquilamente, nem todos é verdade. A possibilidade de termos que sobreviver em condições adversas, no frio da noite, em águas gélidas, não é considerada como alternativa real.

Função desta mecânica, o tratado de Kioto nunca foi referendado pelos americanos e também resistem todas as nações em tomar medidas mais efetivas para que se sigam novos rumos na economia global, principalmente quanto ao meio ambiente. Os sacrifícios que seriam impostos, ou a nova ordem que seria necessária, impactaria as expectativas coletivas, aquelas que atualmente aglutinam os passageiros em torno do navio.

A se manter o ritmo, ao contrário do que se considerava como hipótese mais provável há algum tempo, o mundo não vai sucumbir em função de uma guerra nuclear ou coisa parecida. O mais provável é que o sistema entre em colapso, fato que já aconteceu em outras culturas. E o impacto desta implosão, que trataremos em outro artigo, pela sua abrangência, gerará uma crise sem precedentes na história humana.

Assim sendo, para aqueles que já enxergaram o Iceberg no horizonte, é tempo de preparação. Precisamos nos unir para o momento do naufrágio e precisamos projetar o novo navio. Precisamos nos preparar para sermos náufragos, e nesta condição, garantirmos a preservação dos nossos maiores tesouros, que não são poucos, como já afirmei. Este trabalho é possível e necessário, e para auxiliar nesta tarefa é que foi desenvolvida e estamos apresentando na sala escura do mundo, o elefante da Filosofia Ribasa.

Abraços

Walter

domingo, 2 de janeiro de 2011

O Ano Novo, o Futuro e o Fim dos Tempos rv 06

E aí estamos nós, frente a mais um ano novo, o de 2011. Quem diria!
Período interessante, a virada do ano é o momento em que  voltamos nossas atenções ao futuro. Promessas, planos, objetivos e metas ousadas passam a ser foco das nossas preocupações. Em outras palavras, aproveitando as festas de ano novo, renovamos a intenção de assumirmos o controle sobre os rumos dos nossos destinos. 

Lembro que quando criança, ao pensar no futuro, a minha matemática temporal quanto ao futuro considerava sempre o ano de 2000. Este, associado com o final dos tempos, era o limiar da minha imaginação, do meu planejamento. E ele acabou chegando, mais rapidamente do que eu imaginava, não trazendo consigo a tão sombria ameaça do fim do mundo.

Mas agora, já há alguns anos, convivemos com uma nova referência para esta possibilidade, o fim do mundo, desta feita mais exata e muito, muito mais próxima, está definido para muitos para 21 de dezembro de 2012. Com origem em evento astronômico, o alinhamento do sol com o centro da nossa Galáxia Via Láctea, fato que ocorre a cada 26 mil anos, a previsão com seus eventos associados são abordados de forma bastante heterodoxa, pois para o mesmo caldeirão de pretensa fundamentação, são trazidos indicativos do Calendário Maia, das Profecias de Nostradamus, do chamado Código Bíblico e também o do Web Bot, um projeto baseado na Internet, entre outros.  Não considerando a natureza do que ocorrerá, já que não existe concordância quanto a isto, o fato é que esta previsão catalisa a percepção coletiva de que uma grande mudança é iminente.

E você, qual a sua opinião? Já pensou sobre este assunto? Você acredita e considera a hipótese de que passaremos por uma crise de dimensões globais e conseqüências catastróficas, ainda que não necessariamente no dia 21 de dezembro de 2012? Ou você acredita que serão encontradas soluções para os graves problemas que o mundo enfrenta atualmente?

Pessoalmente acredito que estamos vivendo realmente no limiar de uma grande mudança. Utilizando como analogia a trágica viagem do Titanic, acredito que apesar da mesma forma, ou seja, de já termos enxergado o iceberg no horizonte, infelizmente não conseguiremos evitar o desastre.  É como se o mundo seguisse em piloto automático, com a nossa total conivência e impotência.

A analogia com o Titanic sugere também que nós, nesta etapa somos apenas passageiros quando considerado o destino do mundo.  Apesar da vida efervecente dentro do navio, que se constitui quase como fim em si mesmo, nada ou quase nada é dito de forma clara e direta sobre a proximidade do desastre, ou seja, o destino do mundo. Diante dele e da grandeza da sua dimensão, somos levados a crer que trata-se apenas de turbulências normais de viagem. Portanto, vivemos com a perspectiva de dois destinos que se entrelaçam. O maior e determinante, o do mundo, e o nosso pessoal, construído dentro dos limites e de acordo com as possibilidades definidas pelo cenário maior. E esta é uma sensação que nos acompanha constantemente, ou seja, que apesar de podermos alterar em parte o nosso destino pessoal, estamos sujeitos a impactos de um destino que foge ao nosso controle. Em tempos de mares calmos, desfrutamos de tudo que o "viver no mundo" pode nos oferecer. Mas o poder do destino do mundo e seus riscos, vivenciamos apenas em tempos de mares revoltos, como os tempos de guerra e de crise, este último o nosso caso. 

Num cenário mais amplo ainda, a partir do conhecimento que acumulamos pela ciência, temos que considerar outras duas dimensões, com destinos próprios, como determinantes para nossa existência. De um lado a dimensão da Terra como planeta, com seus ciclos climáticos, geológicos, magnéticos; e de outro a do Universo, também com seus ciclos de formação de galáxias, estrelas, movimentação de sóis, planetas, cometas e asteróides.

Estando todos entrelaçados, influenciando-se mutuamente, estas diferentes dimensões com seus respectivos destinos diferem basicamente quanto ao tempo de realização dos ciclos de cada uma delas, sendo o de menor duração o individual, a história de vida de cada um de nós, nada mais do que um pequeno, muito pequeno suspiro quando considerado o tempo do Universo.

Curiosamente a referência para o fim dos tempos em 21 de dezembro de 2012, considera todas estas dimensões de destino citadas, que se encadeiam e se influenciam em escala, razão provável da nossa atração por esta data. O alinhamento galáctico (destino do universo) gera impactos naturais sobre a terra (destino da terra), que aceleram a crise que atinge nossa civilização, em estágio de alta fragilidade, desestruturando o mundo como o conhecemos (destino do mundo) e por decorrência colocando em risco o destino pessoal de cada um de nós (destino individual).

Mas mesmo diante deste cenário, que pode ser percebido e entendido como apenas mais um capítulo da história da humanidade, ou pela perspectiva pessoal, como catastrófico, é quase certo que teremos o dia seguinte, mais ou menos difícil. O desafio reside em trabalharmos na construção de um novo navio (mundo), que levará a humanidade a um novo destino. Temos que estar preparados para garantir que como náufragos, mesmo diante das maiores dificuldades, seremos capazes de levar à terra firme nossos mais preciosos tesouros, que são incontáveis, frutos da ação humana durante milênios.

Algumas coisas são certas para o dia seguinte. Nós teremos de passar a existir em outra dimensão. Teremos que inverter a pirâmide, deixando de lado a nossa natureza menor, animal, passando a assumir de fato, a dimensão das possibilidades maiores da nossa existência. Teremos que harmonizar as menores ações com os maiores objetivos, enxergar a existência do ser humano dentro do cenário do Universo, harmonizando esta com tudo mais. Em outras palavras, teremos que deixar de lado a adolescência da nossa espécie para assumirmos a  maturidade da humanidade, pois de fato, é extremamente limitada a perspectiva na qual vivemos atualmente, apesar de toda grandeza aparente. 

Em 1994 foi encontrado na Itália um livro datado de 1629, conhecido como o Livro Secreto de Nostradamus. O livro é composto de 07 ilustrações, que segundo intérpretes, culmina com os fatos que acontecerão em 2012. Dentro da perspectiva em que entendemos o futuro, duas coisas chamam a atenção na última ilustração. De um lado, a roda do tempo, que já não tem os seus raios, e de outro, o livro da vida, já sem qualquer escrita, com as páginas em branco. No meu entender estes dois pontos representam a realização do desafio que se coloca para todos nós, ou seja, a vida em nova dimensão. O tempo como conhecemos deixará de ser nossa referência, como já aponta a física quântica. Quanto às páginas da vida em branco, esta sugere  que já não mais escreveremos a história da forma como o temos feito. Iniciaremos a escrita em nova forma, ainda não utilizado por nós, razão pela qual não aparece no Livro Secreto de Nostradamus. 

Que assim seja! Um Feliz Ano Novo para todos!!!

Abraços

Walter