Há um senso de futuro, de devir em tudo que nos cerca, em diversos níveis, uma força que impulsiona todos e tudo para a realização. Ainda que como seres humanos possamos não saber e provavelmente não saibamos exatamente o que em ultima instância significa esta realização, os ciclos que envolvem o surgimento, crescimento, maturação e declínio fazem parte da vida, mas não a resumem.
Há poucos dias, convidado por um amigo que já não via fazia bom tempo, participamos, minha esposa e eu, de um jantar. Além de nós, como convidados, estavam também os filhos, cunhados, sobrinhos, futuro genro e os sogros, enfim, um verdadeiro encontro de gerações.
Reunidos no quintal dos fundos da casa, na chegada fomos recepcionados pela esposa do meu amigo e pelos seus sogros. Ela, uma Senhora nos seus 71 anos, pequena e alegre, com um brilho intenso no olhar, e ele, o sogro, um Senhor de 80 anos, já bastante fragilizado. Logo ao me cumprimentar, comentou que da minha figura só vislumbrava o vulto, já que convivia há alguns anos com problemas sérios de visão, que praticamente o cegavam.
Depois de alguma conversa nos fundos do quintal, sem que ele estivesse presente, foram montadas ali mesmo as mesas para o jantar. Foi neste momento que ele voltou a se juntar a nós, sentando do meu lado, na ponta da mesa. Ao me ouvir afinando um velho violão, já que disposto a tocar algumas canções, ele comentou animado que em tempos passados também ele já dedilhara o violão com alguma destreza, mas que já não o fazia porque não conseguia sequer enxergar.
Depois de afinado o violão, toquei e cantei algumas canções, entre elas ROMARIA, música e letra de Renato Teixeira, embalado por gravação inesquecível de Elis Regina, que guardo como um tesouro no meu coração. Também toquei LUAR DO SERTÃO, praticamente um segundo Hino Nacional, composto por Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco e por último FELICIDADE, de Lupicínio Rodrigues. Todas, com a força das recordações e saudades que despertam, levaram aquele Senhor, de forma contida e silenciosa às lágrimas.
Não se contendo, tomou do violão, e ainda que quase cego, voltou a dedilhar algumas canções, buscando inspiração no seu passado, agora tão distante. Mesmo desafinado, cantou com o coração... e se encontrou. Depois, mesmo sendo alvo da zombaria dos presentes, as novas gerações, já acostumadas a seus lamentos, contou da sua vida. Deixou a Bahia, sua terra natal, quando jovem, impulsionado pelo sonho de fazer fortuna em São Paulo. Foi ao Paraná, onde constituiu família e tocou sua vida. Em seu emocionado relato tinha sempre voltados seus pensamentos para o passado e a dor de tudo que já não podia fazer. Quanto ao futuro, confessou que aguardava apenas a visita da morte, ainda que temeroso por não conhecê-la. Seu olhar já não conseguia alcançar qualquer futuro.
Pensando bem, para aquele homem, o único sentido da vida está praticamente enterrado no seu passado, em tudo que foi capaz de fazer e realizar. Uma realização que deixou marcas e que hoje, além da zombaria dos que o cercam, traz apenas recordações repletas de saudades, tristeza e lágrimas, além do desejo de partir.
Tocado profundamente, fiquei enternecido. Envolto pelo clima da festa, cenário no qual aquele Senhor era figura secundária, sendo um lamento que não encontrava eco, pensei na vida como uma grande árvore que espalha suas sementes sobre a terra. Levadas pelo vento, pelas águas, pelos pássaros, enfim, mundo afora, todas buscam a própria realização. E para nós seres humanos, este desafio da realização vai além do que imaginamos. Se não sabemos ao certo do que se trata, sabemos ao menos que não é suficiente o conhecimento, a família, os filhos, as posses, pois ainda que tenhamos o mundo, nos últimos momentos, nos resta apenas um sabor amargo de vazio, de falta de potência e capacidade, de falta de futuro, assim como relatado por aquele Senhor.
Nossas realizações nos parecem insuficientes, indicando que seguimos, crescemos, mas que de fato, não conseguimos realizar aquele nosso destino maior, a GRANDE OBRA, como escreviam os Alquimistas. Ficam as lembranças, que ainda e mesmo que ricas, estarão sempre no passado. E quanto ao futuro, apenas a cegueira.
A realização humana é o nosso desafio maior, não aquela tradicional, mas uma outra mais nobre, desafio do espírito. É preciso que nossa caminhada, nossas energias, dons e capacidades, disponibilizadas como presentes, sejam direcionados à subida das montanhas, para alturas sempre maiores. Para que de lá possamos enxergar a profundeza dos vales, o mundo, mas também as alturas, os céus. E que ao final, possamos voar, assim nos transformando em seres eternos, para além do espaço e do tempo e das raízes da terra, este sem dúvida nosso lar atual, mas certamente não nosso destino.
Abraços
Walter
Há poucos dias, convidado por um amigo que já não via fazia bom tempo, participamos, minha esposa e eu, de um jantar. Além de nós, como convidados, estavam também os filhos, cunhados, sobrinhos, futuro genro e os sogros, enfim, um verdadeiro encontro de gerações.
Reunidos no quintal dos fundos da casa, na chegada fomos recepcionados pela esposa do meu amigo e pelos seus sogros. Ela, uma Senhora nos seus 71 anos, pequena e alegre, com um brilho intenso no olhar, e ele, o sogro, um Senhor de 80 anos, já bastante fragilizado. Logo ao me cumprimentar, comentou que da minha figura só vislumbrava o vulto, já que convivia há alguns anos com problemas sérios de visão, que praticamente o cegavam.
Depois de alguma conversa nos fundos do quintal, sem que ele estivesse presente, foram montadas ali mesmo as mesas para o jantar. Foi neste momento que ele voltou a se juntar a nós, sentando do meu lado, na ponta da mesa. Ao me ouvir afinando um velho violão, já que disposto a tocar algumas canções, ele comentou animado que em tempos passados também ele já dedilhara o violão com alguma destreza, mas que já não o fazia porque não conseguia sequer enxergar.
Depois de afinado o violão, toquei e cantei algumas canções, entre elas ROMARIA, música e letra de Renato Teixeira, embalado por gravação inesquecível de Elis Regina, que guardo como um tesouro no meu coração. Também toquei LUAR DO SERTÃO, praticamente um segundo Hino Nacional, composto por Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco e por último FELICIDADE, de Lupicínio Rodrigues. Todas, com a força das recordações e saudades que despertam, levaram aquele Senhor, de forma contida e silenciosa às lágrimas.
Não se contendo, tomou do violão, e ainda que quase cego, voltou a dedilhar algumas canções, buscando inspiração no seu passado, agora tão distante. Mesmo desafinado, cantou com o coração... e se encontrou. Depois, mesmo sendo alvo da zombaria dos presentes, as novas gerações, já acostumadas a seus lamentos, contou da sua vida. Deixou a Bahia, sua terra natal, quando jovem, impulsionado pelo sonho de fazer fortuna em São Paulo. Foi ao Paraná, onde constituiu família e tocou sua vida. Em seu emocionado relato tinha sempre voltados seus pensamentos para o passado e a dor de tudo que já não podia fazer. Quanto ao futuro, confessou que aguardava apenas a visita da morte, ainda que temeroso por não conhecê-la. Seu olhar já não conseguia alcançar qualquer futuro.
Pensando bem, para aquele homem, o único sentido da vida está praticamente enterrado no seu passado, em tudo que foi capaz de fazer e realizar. Uma realização que deixou marcas e que hoje, além da zombaria dos que o cercam, traz apenas recordações repletas de saudades, tristeza e lágrimas, além do desejo de partir.
Tocado profundamente, fiquei enternecido. Envolto pelo clima da festa, cenário no qual aquele Senhor era figura secundária, sendo um lamento que não encontrava eco, pensei na vida como uma grande árvore que espalha suas sementes sobre a terra. Levadas pelo vento, pelas águas, pelos pássaros, enfim, mundo afora, todas buscam a própria realização. E para nós seres humanos, este desafio da realização vai além do que imaginamos. Se não sabemos ao certo do que se trata, sabemos ao menos que não é suficiente o conhecimento, a família, os filhos, as posses, pois ainda que tenhamos o mundo, nos últimos momentos, nos resta apenas um sabor amargo de vazio, de falta de potência e capacidade, de falta de futuro, assim como relatado por aquele Senhor.
Nossas realizações nos parecem insuficientes, indicando que seguimos, crescemos, mas que de fato, não conseguimos realizar aquele nosso destino maior, a GRANDE OBRA, como escreviam os Alquimistas. Ficam as lembranças, que ainda e mesmo que ricas, estarão sempre no passado. E quanto ao futuro, apenas a cegueira.
A realização humana é o nosso desafio maior, não aquela tradicional, mas uma outra mais nobre, desafio do espírito. É preciso que nossa caminhada, nossas energias, dons e capacidades, disponibilizadas como presentes, sejam direcionados à subida das montanhas, para alturas sempre maiores. Para que de lá possamos enxergar a profundeza dos vales, o mundo, mas também as alturas, os céus. E que ao final, possamos voar, assim nos transformando em seres eternos, para além do espaço e do tempo e das raízes da terra, este sem dúvida nosso lar atual, mas certamente não nosso destino.
Abraços
Walter
Esse senhor é afortunado, pois mesmo não tendo realizado a "GRANDE OBRA", realizou pequenas obras, como constituir uma família grande que ainda se reúne em torno de uma mesa e convida amigos!
ResponderExcluirA propósito, o que seria a "GRANDE OBRA"?
O anonimo , olha só , o cara nao construiu nada meu nao tem paz de espirito fica remoendo o passado .
ResponderExcluireu quando ficar velho quero ter paz de espirito e chegar a conclusao que minha vida valeu a pena.
acho que a grande obra é saber viver cada fase da vida com serenidade e curtir o momento.
Familia é uma verdadera desgraça meu, voce nao entendeu nada, sai fora mano.
Muita calma nessa hora, tenho uma boa frase para familia:
ResponderExcluirFamilia é um bando de pessoas que se defendem em grupo e se atacam em particular..rsrsrs.