domingo, 24 de abril de 2011

Os Monges de Tibhirine

(texto adaptado do programa na Rádio Mundial em São Paulo em 23.04.2011. Para ouvir o áudio executar o player abaixo)

Áudio Programa Rádio Mundial 23/04/2011

É chegada novamente a Páscoa, tempo em que comemoramos a ressurreição de Jesus Cristo, tempo em que somos lembrados do convite que ELE nos fez como filho de DEUS, de ressurgirmos para uma nova VIDA a partir da transformação de cada um de nós através do AMOR, obedecendo a um dos seus mandamentos que diz: AMA TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO!

Em um mundo cada vez mais afastado deste ensinamento de Jesus Cristo, um mundo em que o egoísmo reina quase que absoluto, um mundo em que convivemos com a realidade da violência descabida, como a que nos afrontou no Rio de Janeiro, na tragédia que se abateu sobre a escola de Realengo, hoje, às vésperas do Domingo de Páscoa, vamos buscar neste mundo tão escuro, uma história real, comovente e positiva sobre o impacto que o AMOR traz à VIDA daqueles que seguem o ensinamento que nos trouxe Jesus Cristo.

Nesta semana, na última quinta-feira resolvi ir ao cinema e acabei assistindo o filme francês “Homens e Deuses”, sobre o qual não havia lido ou ouvido qualquer comentário. Ele é baseado em sequência de fatos que se passaram na Argélia na década de 90, período em que ela esteve mergulhada em guerra civil deflagrada por um golpe militar em  1992.

Em termos históricos, para compor o cenário, lembro que a Argélia foi colônia francesa, no período compreendido entre 1830, quando iniciou sua conquista colonialista, e 1962, quando foi declarada sua independência pelo Presidente Francês Charles de Gaulle, após uma longa guerra civil iniciada em 1954. Durante todo este período, no entanto, e até os dias atuais, grupos de orientação fundamentalista islâmica lutam para implantar um Estado de orientação Muçulmana, movimento intensificado após o Golpe Militar de 1992, que transformou a Argélia em cenário e palco de muitas atrocidades.

É dentro deste contexto que se passa e é contada a história de oito monges no filme, todos Monges Cistercienses, uma ordem monástica francesa fundada no ano de 1098 e que se manteve na Argélia mesmo depois da declaração de sua independência, instalados nas montanhas de Tibhirine no Mosteiro de Notre Dame de Atlas. Estes monges conviviam totalmente integrados à comunidade muçulmana local, tendo desenvolvido profundos laços de respeito e de confiança.  O prior Padre Christian, falava fluentemente o idioma árabe local e era conhecedor da cultura islâmica, inclusive do Corão.

A partir de 1992, em função da Guerra Civil, os monges passaram a ser ameaçados pelo terror que assolava também a região de Tibhirine, uma ameaça que representava inclusive risco para suas vidas.

A história se desenvolve em diversas dimensões. Na dimensão política, onde são abordadas questões ligadas ao colonialismo francês na Argélia e suas consequências negativas, na violência dos grupos extremistas fundamentalistas islâmicos e por último, que é o que quero ressaltar aqui, na dimensão do conflito interior vivido por cada um dos monges que encaravam a possibilidade de retornarem à França, decisão que cabia a cada um deles, individualmente, assim abandonando suas vidas  no Mosteiro, ou ficarem, correndo o risco de uma morte brutal.

É nesta dimensão que o filme torna-se importante para nós que estamos trabalhando com a Filosofia Ribasa, ou seja, no comprometimento que cada um de nós deve assumir frente ao destino, seu próprio e do mundo. Nós somos, cada um de nós, indivíduos situados dentro de um mundo complexo e poderoso. E para a maioria de nós, a sensação é de que não somos os responsáveis pelo destino do mundo e muitas vezes nem pelo nosso próprio. De fato somos engolidos pela complexidade e poder de tudo que nos cerca, restando apenas, muitas vezes,  a sensação ou de impotência ou de esperança de que o futuro possa ser garantido e seguro, pelo menos para nós.

Recorrendo novamente a imagem já utilizada diversas vezes aqui no programa, nós vivemos como que dentro de um grande navio, ocupados e mergulhados nos afazeres próprios da sua realidade. E enquanto estamos ocupados com a nossa história individual, vivendo apenas o dia a dia dentro do navio, nos seus corredores, salões, salas de máquinas, não conseguimos vislumbrar a direção em que ele segue. Somos todos, ou pelo menos nos sentimos como meros passageiros, na verdade prisioneiros de seus labirintos, para muitos, tão ricamente adornados.

Assim, nós tentamos conseguir o melhor emprego possível, com uma boa renda que permita a realização dos nossos sonhos e planos, entre eles o de subirmos para um melhor andar dentro do navio, tentamos também dar aos nossos filhos a melhor educação e formação imaginável, e por último, tentamos ficar afastados do perigo que ronda nossas vidas neste mundo tão repleto de violência.

Enfim, vamos tocando nossas vidas como se fossemos pequenos grãos de areia na imensidão de uma grande praia, em meio a bilhões de pessoas. Da mesma forma viviam também aqueles monges franceses no seu cotidiano, lá na Argélia, integrados à comunidade muçulmana a quem respeitavam e prestavam alguns serviços, principalmente através da medicina, com atendimento médico.

Mas esta paz em que eles viviam, a paz dos grãos de areia na grande praia do mundo foi abalada. E eles se viram diante de um dilema, de um lado, a possibilidade de serem martirizados por terroristas em meio a uma guerra civil promovida por extremistas islâmicos e de outro, de sem nenhum impedimento maior, a não ser a decisão de cada um deles, de retornarem à segurança, sem riscos, de uma vida na França ou em outro lugar  “seguro”.

Primeiramente, logo após a primeira invasão do Mosteiro, que acabou acontecendo em 1993,, o líder da congregação, Padre Christian se recusou a aceitar a proteção militar do exército às instalações do Mosteiro Atlas oferecida pelo Governo Argelino. Esta atitude, tomada unilateralmente, de certa forma desagradou alguns monges da Congregação que em uma de suas reuniões regulares, colocaram em discussão sobre o assunto, ou seja, se deveriam permanecer no mosteiro diante dos riscos representado pelo terror que se alastrava pela região, ou se deveriam partir para um lugar mais seguro ou até mesmo à França.

Mesmo bastante divididos, uns favoráveis e outros contrários à partida, eles decidiram postergar a decisão, concluindo pela necessidade de dedicarem um tempo maior para reflexão de cada um deles sobre o assunto. No nosso entender, de acordo com o que a Filosofia Ribasa aponta, esta postergação deveu-se ao fato de que diante do novo cenário, algo nunca antes imaginado, eles foram colocados a prova em um nível bastante profundo, algo que precisava ser trabalhado.

Assim, vejam que apesar de eles terem superado e sublimado grande parte das suas forças psíquicas ancestrais, vivendo em castidade, humildade e também a serviço do próximo no Mosteiro, a nova realidade trouxe a tona parte das forças psíquicas ancestrais que ainda jaziam adormecidas dentro de cada um deles, colocando em xeque todo sentido da vida que eles tinham abraçado.

A este respeito ocorre-me contar a estória de um monarca árabe que durante uma de suas viagens, certa vez chegou a uma localidade onde foi muito bem recebido pelos seus moradores. A passagem de sua caravana, as pessoas jogavam flores, tapetes, enfim, objetos que adornavam o caminho. Em determinado ponto, no entanto, a caravana passou por uma prisão, repleta de assassinos, ladrões, muitos deles leprosos. Pelas grades, estes infelizes passaram a jogar seus trapos de roupas, suas vasilhas de comida e outros objetos pessoais, uma cena aparentemente degradante se comparada com as anteriores. Perguntado sobre o que achara da sua passagem pela localidade, o Monarca destacou a atitude dos condenados, afirmando que se os demais habitantes da cidade haviam atirado apenas o que não lhes fazia falta, estes, os condenados, já que suas vidas dependiam em grande parte do Monarca, haviam atirado tudo que lhes era de mais caro.

É também como a receita conhecida de OMELETE COM BACON. Nesta receita enquanto a galinha participa apenas com um ou mais ovos, preservando sua vida, o porco entra por inteiro, entregando a própria vida.

No caso dos Monges do Mosteiro de Atlas, foi somente no momento em que eles tiveram que dispor do que lhes era mais caro, ou seja, suas próprias vidas, que eles se deram conta e passaram a refletir sobre se de fato queriam ou não levar às últimas consequências os votos que haviam feito quando das suas ordenações, estes feitos sob circunstâncias que não permitiam antever qualquer cenário futuro que implicasse em risco de vida.

Divididos, alguns se imaginaram apenas como estrangeiros cumprindo uma missão que não envolvia a possibilidade do martírio, razão pela qual pensavam em partir. Diante do risco, efetivamente tiveram medo e não enxergaram inicialmente qualquer razão para permanecerem no local, já que não se consideravam responsáveis pelos conflitos que naquele momento representavam uma ameaça a suas vidas. Eles se imaginaram separados de todo o entorno, assim como nós nos imaginamos sempre.

Mas a visão quântica, da qual temos falado, foi lentamente sendo construída. Primeiramente eles passaram a ponderar sobre a importância de seus círculos de relacionamentos, dos quais já tratamos em artigos anteriores. Assim, em determinado momento do filme um diálogo trata da relação de um dos monges com sua família.

Em outro diálogo, com uma autoridade local, eles foram lembrados da história de colonização da França na Argélia e suas consequências, o que fez com que percebessem a dimensão da sua inserção histórica.

Dentro da comunidade, eles também perceberam o quanto representavam para aquele povo simples que neles depositava tanta confiança. Em conversa com um casal, em determinado momento um dos monges afirma: “nós monges somos como aves em um galho, decidindo apenas quando vamos voar”. E a mulher prontamente respondeu “não, nós é que somos as aves e vocês são os galhos sobre os quais repousamos nossas esperanças”.

Por último, mesmo diante do medo que desencadeia a reação de fuga, uma reação ancestral, para eles inicialmente justificável já que ainda se imaginavam como estrangeiros em missão própria de tempos de paz, aos poucos eles deixaram brotar a força maior do espírito, que está direcionada para além dos nossos medos, das nossas forças psíquicas ancestrais e dos limites da nossa individualidade.

Passado o temor inicial, foi através do AMOR que eles puderam se inserir de forma absoluta dentro da rede que os unia irremediavelmente a todas as circunstâncias em que eles se encontravam. Eles poderiam ter partido, mas por unanimidade resolveram ficar e enfrentar seus medos.

Assim, como temos dito nos nossos programas, todos nós estamos conectados em diversos níveis a todos e tudo que nos cercam, a todas as circunstâncias do mundo em que estamos inseridos. E esta conexão, a consciência dela, traduz o que temos chamado de estado quântico.

E ainda que este não seja uma realidade para todos nós, já que não característico da nossa natureza ancestral, ele representa o passo adiante, uma dimensão dentro da nossa caminhada espiritual, um estado que vamos desenvolver, conforme temos afirmado aqui no nosso programa.

Estes monges diante do perigo eminente, mesmo com a ativação de algumas forças ancestrais que ainda estavam adormecidas, forças que naturalmente os teriam levado à fuga,  conseguiram mudar de estado e se reconheceram em novo patamar de existência, no qual deixaram de ser apenas seres individuais, isolados, desconectados passando a pautar suas vidas por uma nova realidade, esta muito mais rica e ampla.

Não foi com base nas suas expectativas pessoais que eles mudaram de estado. De fato, depois do tempo dedicado a reflexão, a muitas conversas e trocas, todos sem exceção, reafirmaram seu votos, ou provavelmente os afirmaram pela primeira vez com a profundidade e com o comprometimento exigidos pela situação, decidindo pela permanência no Mosteiro, apesar de todos os riscos.

Ainda que envolvidos em uma história da qual não participaram diretamente, eles perceberam a dimensão e amplitude das conexões que os uniam a todas as circunstâncias em que se encontravam. Eles não eram como imaginaram inicialmente, simplesmente estrangeiros em uma terra distante. Eles perceberam que eles eram a França colonizadora, o apoio para o povo local, a imagem distorcida dos extremistas islâmicos, e por último, a mão de DEUS agindo através deles, do exemplo espiritual que poderiam deixar como testemunho do AMOR incondicional ao próximo que passaram a viver.

Imbuído e imerso neste estado de AMOR, um dos monges, então com 82 anos, Irmão Luc, médico formado, que chegava a atender até 150 pessoas por dia em seu consultório no Mosteiro, em determinado momento afirmou: “eu não tenho medo do exército e também não tenho dos terroristas, pois eu sou livre”.

Mas a que tipo de liberdade ele se referia? Será que ele se referia a liberdade na forma como nós a entendemos, como o mundo a defende, ou seja, uma liberdade que permite a livre expressão e realização dos nossos desejos, sonhos e planos, de podermos fazer o que bem entendemos, ou seja, uma liberdade egoísta?

Ou ele defende outra liberdade, uma liberdade que está muito além, a liberdade do AMOR, que mais do que um sentimento, como muitas vezes é encarado por nós, é um estado de ser, um estado de ser que tem a força de transformar as nossas vidas, estendendo suas asas para tudo que nos cerca, já que ele, o AMOR se transforma em realidade apenas quando direcionado ao que não está em nós. É assim que ele nos eleva para além de nós mesmos, subjugando as forças ancestrais da nossa natureza, transformando as nossas vidas em pura espiritualidade e, portanto, nos mostrando uma nova liberdade, esta a única verdadeira.

A liberdade da qual ele fala é afirmada em relação ao mundo e sua estreiteza. Imerso no AMOR que o conecta a DEUS em um plano superior, ele se transforma em ferramenta para realização do que tem que ser, do servir, do AMAR, já sem amarras neste mundo, nem mesmo à sua VIDA na dimensão física.

E é deste AMOR que temos falado em nossos artigos, deste AMOR que estabelece os fundamentos para uma nova vida, um novo mundo, um mundo em que vivemos em um patamar superior de existência.

AMA teu próximo como a ti mesmo! Esta foi a grande mensagem, o grande desafio que Jesus Cristo trouxe e lançou para todos nós seres humanos, ele, que nos amou de tal forma que deu sua vida por nós. É este ensinamento que precisamos relembrar e assumir como missão nesta semana de Páscoa.

Quanto aos monges, em 1996 seis deles foram seqüestrados e mortos pelos integrantes do Grupo Islâmico Armado. Apesar do fim aparentemente trágico, como eu afirmei no início deste artigo, os monges nos deixaram um legado positivo, um legado que chega até nós através deste filme, agora aqui no Brasil.

Na França, o filme foi aclamado no Festival de Cannes, tendo sido vencedor do Grande Prêmio do Júri em 2010. Nas primeiras cinco semanas após o seu lançamento ele foi assistido por mais de cinco milhões de pessoas.

Por fim, o exemplo deixado por eles, que chega até nós, foi captado pela crítica do jornal Francês Le Monde que afirma que: “Os Monges de Tibhirine encarnam tudo que o público, da esquerda e da direita, já não encontra na sociedade: a nobreza de espírito, um sentido de sacrifício, liberdade, sinceridade, ecologia, meditação e reflexão diária sobre a morte”.

Desejo a você leitor uma excelente Páscoa. Que você possa atender ao chamado e a exemplo dos Monges de Tibhirine encontrar e aprender a viver neste estado do AMOR incondicional.

Um grande abraço

domingo, 17 de abril de 2011

Amarrando as Pontas

(adaptação do programa de 16/04/2011 na Rádio Mundial. Para audição, execute o player no link abaixo)

Áudio Programa Rádio Mundial 16/04/2011

Passada a comoção inicial causada pelos eventos ocorridos no Japão e também em Realengo aqui no Brasil, tema que também tratamos aqui no nosso blog, é tempo de seguirmos em frente, aproveitando a oportunidade para amarrarmos as pontas de algumas idéias e conceitos que temos apresentado.

Este trabalho é importante na medida em que a  Filosofia Ribasa vai apresentando a você leitor uma teia de idéias, de imagens que visam conduzir você a uma nova perspectiva sobre a vida, desta forma estabelecendo as condições para que você possa caminhar rumo a um novo patamar de existência. É um trabalho que exige paciência, como diz o ditado: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. É o elefante na sala escura. Nós vamos apresentando as idéias, conceitos e imagens, muitas vezes apresentando o mesmo ponto de diferentes perspectivas, para que assim em algum momento você possa enxergar com seus próprios olhos, com seu ser, o caminho que indicamos. Portanto, caro ouvinte, não se prenda a idéias, aos conceitos, pois estes são um meio e não um fim. Busque olhar para além deles, para o que eles apontam, neste caso, um estado de ser, que deve se estabelecer dentro de você em todas as suas dimensões, não só na sua mente, no seu entendimento. Em outras palavras, este estado de ser precisa ser construído, experimentado, vivido.

Nós já abordamos aqui no blog a existência humana em algumas de suas variadas dimensões. Falamos da relação do ser humano com o planeta, na visão de que estamos nos relacionando com ele a partir de uma perspectiva antiga, totalmente ultrapassada. Comentamos que do embate travado durante milhares de anos entre a espécie humana, inicialmente acuada e a natureza, esta toda poderosa, a humanidade passou a exercer o seu PODER, este cada vez maior, na perspectiva do vencedor, explorando e usufruindo da sua conquista, basicamente  recursos naturais do próprio planeta. E nesta perspectiva do vencedor, totalmente equivocada, a humanidade segue rumo à exaustão do planeta. Esta tendência está tão arraigada em nós que hoje, inclusive, já se fala em habitar e explorar novos planetas, dentro da mesma perspectiva ultrapassada.

Esta história do embate entre a natureza e espécie humana, para nosso melhor entendimento, pode ser comparada com a experiência do sapo na panela. Segundo dizem, e vale aqui apenas a imagem, quando você coloca um sapo em uma panela com água fria e a coloca sobre o fogo, o sapo não percebendo o lento aquecimento da água acaba morrendo. No entanto, se você coloca o sapo na mesma panela já com a água quente, ele imediatamente pula para fora, salvando sua vida.

Com a humanidade parece ser o mesmo caso. Como estamos mergulhados há milhares de anos dentro de uma mesma perspectiva no relacionamento com a natureza, não percebemos o lento aquecimento da água, coincidentemente também não o aquecimento global. Assim, ficamos inertes, passivos, quase que paralisados, como se não soubéssemos o que fazer. E ainda que aparentemente conscientes do que está acontecendo, fato recente na nossa história, tudo que temos feito para mudar o cenário pouco tem representado diante da voracidade com que continuamos seguindo na direção errada. Em resumo, falta uma nova perspectiva, uma perspectiva que estabeleça os fundamentos que possam instaurar uma nova era no relacionamento entre nós seres humanos e o planeta.

Foi para dar início à construção desta nova perspectiva que apresentamos a técnica da VISÃO DE MONTANHA, a partir da qual podemos adquirir uma visão circunstanciada da nossa existência, referenciando-a ao contexto da história do planeta e da própria humanidade. É como se mergulhados no mundo, imaginado como um mar, situação na qual nós nos encontramos, nós aprendêssemos a tirar a cabeça para fora da água. Você deve lembrar também do exemplo que apresentamos do grande navio, este representando a imagem do mundo seguindo rumo ao seu destino. Neste caso, desenvolver a VISÃO DE MONTANHA representa a possibilidade de sairmos dos porões deste navio para subirmos ao deck, ao convés, e assim olharmos para o horizonte com suas oportunidades. Significa sair do ar poluído do mundo para respirar novamente ar puro.

Através da aplicação desta técnica, como conseqüência, se desenvolve o estado da HUMILDE DÚVIDA, assunto que tratamos no artigo publicado no blog no dia 24 de fevereiro.  Através dele você se coloca em posição de curiosidade, de relatividade, passo importante para poder mudar a perspectiva de caminhada na sua vida. Em palavras mais simples, você se convence que você pode ser diferente e abraça esta causa.

Com a aplicação destas duas técnicas, intencionamos tirar o maior número possível de pessoas desta situação de perplexidade, de inércia, de paralisia, transformando-as em sapos que saltam para fora desta água quente na qual estamos cozinhando lentamente.  E este salto para a vida, escapando da água escaldante, representa o salto qualitativo para um novo patamar de existência, em nova realidade, que denominamos quântica.

 A este respeito gostaria de citar um livro, cuja edição brasileira recebi das mãos do amigo  Sérgio Rizek, da Attar Editorial. O livro chama-se MUTUS LIBER (O Livro Mudo da Alquimia), publicado pela primeira vez na França em 1677. Ele trata do trabalho alquímico, apresentado em 15 páginas ilustradas, praticamente sem o uso de palavras.

Mas antes de abordar este assunto, quero reafirmar que a Filosofia Ribasa apesar de utilizar uma série de conceitos, não tem na dimensão conceitual sua essência nem seu objetivo. Até porque a base da Filosofia Ribasa não pode ser expressa em conceitos, pois ancorada em experiências dentro de um novo estado de ser, o novo patamar de existência, como tenho comentado.

Utilizando mais uma imagem, e eu ressalto que as imagens são ferramentas de grande valor dentro do trabalho da Filosofia Ribasa, podemos dizer que as palavras e os conceitos representam para a Filosofia o que uma esfera poderia representar para uma reta. Pense na dificuldade que a esfera teria, já que vivendo em três dimensões, para explicar sua existência a uma reta, esta existindo em apenas duas dimensões.

Assim, ainda que para fins didáticos sejam utilizados conceitos e palavras, este são utilizados apenas como ferramentas, precárias e limitadas, razão pela qual são virados e revirados. Por esta razão, a Filosofia Ribasa não busca um apuro conceitual e lógico, pois este seria próprio de uma dimensão intelectual, algo que não nos interessa neste trabalho.

E aí lembramos do artigo publicado no blog no dia 08 de março, A ALAVANCA DE ARQUIMEDES, no qual afirmamos que os conceitos, estes comparados com alavancas, devem ser trabalhados para se adequarem à realidade específica daqueles buscam a nova perspectiva de via. Assim, em alguns momentos pode-se ter inclusive a impressão de estarmos apresentando aparentes contradições. Não se preocupe. É assim mesmo. E faço este comentário pois os especialistas, os intelectuais certamente vão ficar arrepiados com esta falta de preocupação. as minhas colocações. A estes, antes de tudo eu já peço desculpas antecipadas, mas também lembro novamente, que a Filosofia Ribasa é um meio e não um fim. Para ela, o conhecimento, um novo conhecimento, será decorrência de uma nova experiência. E é para a vivência a nível individual desta nova experiência que trabalha e existe a Filosofia. Ela não é a fonte de água cristalina, como eu já afirmei, ela é apenas o conjunto de ferramentas que aponta e ajuda o viajante para descobrir e seguir o seu caminho. E ferramentas, quando precárias, precisam ser adaptadas, assim como diz um outro ditado: “quem não tem cão, caça com gato

Voltando ao livro, ao Mutus Liber, na primeira ilustração, inserina no início deste artigo, podemos ver, entre outras coisas, uma escada que liga o céu e a terra, e dois anjos descendo por ela tocando suas trombetas para um ser humano que dorme tranquilamente, deitado sobre a terra. Por um lado a imagem indica nosso estado atual, ou seja, de sono, de inércia, de torpor e paralisia, tudo conforme mencionado antes. Por outro indica a grandeza das possibilidades que se abrem para nós seres humanos.  E vejam que os anjos presumidamente não precisam descer ou subir escadas já que seres alados. Assim, a presença da escada é indicação expressa do caminho que precisamos percorrer, transformando o chamado dos anjos, o tocar das trombetas em desafio, nossa missão, conhecido como o caminho do espírito.

Mas porque vivemos neste torpor, nesta inércia e sono, assim como o homem da imagem? Como comentamos em vários artigos, este estado é decorrência do domínio das forças psíquicas ancestrais nas nossas vidas. Na nossa relação com o mundo, entendido em todas as suas dimensões, estamos sempre sob a influência destas forças, o que nos mantém cegos e atrelados a uma dinâmica que busca unicamente a realização cega destas. E é importante lembrar que estas forças trazem no seu bojo uma lógica de recompensas que nos impulsionam a persegui-las, ou seja, elas têm caráter dinâmico, impulsionando nossas vidas.

Interessante perceber que estas forças psíquicas não se mostram na forma conceitual. Ou seja, individualmente, na vida de cada um de nós elas simplesmente existem, e ponto. Elas simplesmente determinam grande parte das nossas ações, e assim é. Ainda que possamos elaborar um sem número de justificativas ou idéias posteriores, o fato é que elas têm existência para além da dimensão conceitual, do pensamento. E assim, apesar de ocuparem grande espaço em nossas vidas, elas não são muitas vezes sequer reconhecidas por nós, como se não existissem no horizonte da nossa consciência.

Por atuarem no nosso nível inconsciente, elas também são identificadas com o lado escuro do nosso ser. Quanto ao trabalho que estamos propondo na Filosofia Ribasa, este deve ocupar outro nível, na dimensão da luz, da consciência, características próprias do espírito.
Mas da mesma forma como acontece com as forças psíquicas, as habilidades e características indicadas pela Filosofia Ribasa, quando desenvolvidas individualmente, passam a fundamentar nossa ação também em nível não conceitual, mas em novo patamar de existência, já que a partir deste trabalho desenvolvemos um novo centro de energia, de dimensão espiritual. Este passa a ser a nova fonte energética de impulso para nossas ações. As próprias forças psíquicas, nesta etapa, passam a ser controladas por este novo centro, permitindo um novo tipo de relacionamento com elas. Em resumo, acontece uma transmutação do ser, que consideramos como o objetivo da grande obra da alquimia.

Em outra dimensão, por ser construção, construção do espírito, precisamos estar conscientes de que esta não se dá isoladamente, pelo menos não dentro da proposta da Filosofia Ribasa. É na convivência com o próximo que estabelecemos as condições para nossa caminhada. É como se este fosse o espelho no qual podemos nos enxergar e assim avaliar nossa caminhada. A matéria prima do trabalho são as nossas forças psíquicas ancestrais, que vale ressaltar, só se exteriorizam e se mostram, e assim podem ser trabalhadas, a partir da relação com o outro no mundo. Ou seja, nossa humanidade se realiza através do próximo.

Dentro deste contexto, assim como comentamos no último artigo com respeito à tragédia de Realengo, podemos perceber que os nossos círculos de relacionamentos assumem importância fundamental no desenvolvimento das nossas vidas. É nestes círculos, nas relações que se estabelecem neles que as forças psíquicas se expressam, muitas vezes de forma negativa, como foi o caso de Realengo. Poder, exclusão, competitividade, inveja, ciúmes, ganância, depreciação, enfim, uma série de mecanismos são ativados quando estamos em relação com os outros dentro dos nossos círculos de relacionamentos. Pode ser uma verdadeira guerra. E ainda que sejam boas as intenções, como nos casos de igrejas e outras instituições, que são criadas com propósitos positivos, normalmente estas também são contaminadas pelos efeitos negativos das nossas forças ancestrais.  Ainda que a cultura, como comentamos em outro artigo do blog imponha para cada sociedade um conjunto de punições, buscando limitar a expressão negativa das forças psíquicas, elas não deixam de existir, sempre encontrando nova forma de expressão e realização.

Para encerrar, vamos tratar da Alquimia Quântica, tema que tratamos em um dos nossos primeiros artigos. Naquele momento alertávamos para o fato de que nós estamos vivendo em um mundo que podemos chamar de “barulhento”. Nós estamos vivendo exacerbadamente para fora de nós mesmos, tomando o estágio psíquico e espiritual de cada um de nós como plataforma estável e consolidada, a partir da qual nos lançamos ao mundo na busca desenfreada pela realização dos nossos planos e sonhos. Neste sentido, do ponto de vista da Filosofia Ribasa, vivemos uma inversão, ou seja, utilizamos o espírito para realizar o mundo e não o mundo para realizar o espírito. E assim, nós desconectamos o nosso espírito da nossa história individual. Mesmo que ainda viva a centelha do espírito em cada um de nós, enviando desesperadamente seus sinais, nós temos interpretado o caminho para sua realização de forma equivocada.

É por isso que falamos em ALQUIMIA QUÂNTICA. Alquimia no sentido de que você precisa deixar de se considerar como plataforma estável e consolidada, colocando-se na perspectiva da mudança, da transformação de sua vida do ponto de vista interior. Desta forma você estabelece uma dinâmica na qual você passa a transformar o mundo na mesma medida em que este transforma você. Este é o chamado do espírito, que quando atendido e vivenciado no tempo, dá sentido pleno, um novo sentido, aos seus dias, trazendo a perspectiva do milagre para cada momento vivido.

Quanto à dimensão QUÂNITCA, esta aponta para a necessidade de superarmos a ilusão  de que as coisas são separadas, proposta para seguirmos rumo a um novo patamar de existência que será fundamentado em uma nova consciência, uma nova percepção, esta ainda desconhecida para a maioria de nós. Recomendo neste sentido, novamente, o documentário chamado WHAT THE BLEEP DO WE KNOW – AFINAL QUEM SOMOS? Ele aponta para coisas muito interessantes, compondo o acervo de ferramentas que podemos utilizar para desenvolver a Visão de Montanha, da qual já falamos.

E é justamente dentro da perspectiva indicada por estas duas dimensões que eu propus que você leitor passe a realizar pequenas tarefas de trabalho doméstico. Principalmente para aqueles que ainda não o fazem, independentemente de ser homem ou mulher, não importa a idade, eu propus que passassem a fazer coisas simples do dia a dia, como arrumar o quarto, a cama, lavar a louça, lavar e passar a roupa, limpar o chão e o banheiro. Pode inicialmente ser apenas uma destas, regularmente, mas nunca mecanicamente. A proposta é que estas atividades sejam feitas com atenção, com foco total, sentindo cada momento e mantendo a atenção na ação. Há de se dar importância a cada gesto, no caso da cama, como se  arrumando a cama de um rei, no caso, você mesmo. Assim deve-se trazer uma dignidade ao fazer, um silêncio. E ao final, deve-se admirar a obra, sentindo o seu impacto sobre o seu espírito.

Se você trabalhar desta forma, você estará estabelecendo um novo reino, o seu reino alquímico quântico, que mais tarde vai se expandir, expandir, até abranger o mundo todo... até mesmo o Universo, como veremos em próximos artigos.

domingo, 10 de abril de 2011

A tragédia de Realengo

(adaptação do programa de 09/04/2011 na Rádio Mundial. Para audição, execute o player no link abaixo)

Acesso ao Áudio do Programa 09 de abril

Assim como em alguns artigos comentamos os eventos do Japão, discorrendo sobre a relação da humanidade com o planeta, a natureza, mostrando que esta está nos levando a uma situação insustentável, neste artigo quero comentar a tragédia ocorrida em uma escola no Rio de Janeiro, em Realengo na última quinta-feira, dia 07 de abril.

O acontecido no Rio de Janeiro por coincidência ou não, está relacionado com a visão que me levou a fazer o programa do último sábado, dia 02 de abril, transcrito em artigo adaptado neste blog. Neste, já com o intuito de levantar justamente este tipo de problema, tratei a questão da nossa identidade, autoimagem e autoestima, construídas em grande parte, como afirmei, sobre os fundamentos constituídos pelos nossos círculos de relacionamentos, na família, na escola, no trabalho e em outros.

É dentro da dinâmica da nossa relação com o mundo, representada concretamente pelos nossos círculos de relacionamentos, que vamos estabelecendo os parâmetros para a construção da história das nossas vidas, definindo de fato quem somos.

Pois bem. Depois da tragédia no Rio de Janeiro, encontramos uma série de depoimentos e principalmente análises tratando do ocorrido, a partir de diversas perspectivas, todas buscando iluminar as razões que levaram à tragédia.

Dentro deste cenário vamos apresentar a perspectiva que a Filosofia Ribasa dá aos fatos, seguindo a linha de tudo que temos foi apresentado desde que iniciamos nosso blog e também no programa da Rádio Mundial, e neste caso, especialmente, a linha que desenvolvemos no último artigo.

Dentro da visão da Filosofia Ribasa, como já comentado, todas as coisas estão conectadas. Nós trabalhamos dentro de uma visão quântica do mundo, ou seja, onde nada é separado. E este é o primeiro ponto, ou seja, nas análises que tem sido apresentadas sobre a tragédia, de um modo geral tem se tentado restringir ao universo do rapaz que desencadeou a tragédia, todas as variáveis que o levaram a cometer seus atos.

Acredito que a visão, inclusive muito divulgada pela mídia, já que embasada por vários psiquiatras, de que o rapaz pode ser enquadrado simplesmente como DOENTE MENTAL, ESQUIZOFRÊNICO ou vítima de um SURTO PSICÓTICO é uma explicação muito simplista, ainda que seja um caminho rápido para entendimento do ocorrido. Os rótulos, como já afirmado, constroem as prisões que impedem a dinâmica necessária para alteração da realidade.

E esta é a visão defendida pela psiquiatria, de que os “desajustados”, com diversos rótulos,  precisam receber tratamento. E quem são os que se enquadram como desajustados: hoje são milhões, inclusive no Brasil, abrangendo desde aqueles que convivem com sentimentos de ansiedade, insônia, crises de pânico, até casos de depressão profunda e outros problemas.

O grau de desajuste pode ser variável, mas o sintoma que indica a gravidade de cada caso está relacionado diretamente à incapacidade da pessoa em administrar de forma autônoma sua vida dentro do que preconiza a sociedade. Neste sentido, quanto mais incapaz a pessoa se torna, mais desajustada ela é considerada, chegando ao ponto em que pode ser afastada do convívio social através de internamento em clínica psiquiátrica.

Esta prática de internamento, no entanto, é hoje considerada como uma solução extrema, não sendo mais necessária na maioria dos casos, já que os psiquiatras dispõem de uma gama enorme de drogas desenvolvidas para lidar com situações de desajuste.
Conheço pessoalmente este processo, pois minha mãe durante 48 anos fez uso continuado, em doses cada vez maiores, destes ditos remédios, até que com 75 anos, no início do ano passado, ela sofreu uma parada cardíaca, provavelmente decorrente de uma síndrome de abstinência, vindo a falecer alguns dias depois.

Falando sobre este assunto com meu filho, ele se disse impressionado com o número de amigos, todos jovens na faixa de 23 ou 24 anos, a mesma do rapaz que desencadeou a tragédia no Rio de Janeiro, que sofrem de depressão, ansiedade, crises de pânico, e que não enxergando outra solução, lançam mão de “ansiolíticos, antidepressivos, etc.”

E vejam que no caso do rapaz da tragédia no Rio de Janeiro, apesar de certamente podermos afirmar que ele era seriamente desajustado na visão da psiquiatria, ele continuava administrando sua vida de forma autônoma. E ainda pior, em determinado depoimento uma pessoa que o conhecia e com a qual ele mantinha contato regular, afirmou que em momento e tempo algum ele expressou qualquer atitude agressiva. Assim, apesar de estranho como muitos afirmaram, o que é comum a milhões de pessoas, a princípio ele não parecia apresentar qualquer risco à sociedade.
                                              
Mas então porque ele se transformou em pivô de uma tragédia de tamanha envergadura. Além dos fatos de sua vida que estão sendo levantados e aos quais já temos algum acesso, ele deixou uma carta, ponto importante para montarmos o quebra-cabeças da história e assim quem sabe desvendarmos a gênese do ocorrido, sob a ótica da Filosofia Ribasa.

No meu entender a carta se divide em três tópicos, todos relacionados.
O primeiro diz respeito à família, à qual ele demonstra apreço, já que pede que seja respeitada a vontade do seu pai que queria passar a casa de Sepetiba para o seu nome e também pede para ser enterrado ao lado da sua mãe adotiva.

O segundo diz respeito aos animais – principalmente os abandonados, que ele considera muito desprezados e que, portanto, precisam de proteção, já que não podem se comunicar e trabalhar para o próprio sustento. Por esta razão quer que seja destinada sua casa para este fim, ou seja, a uma instituição pobre que cuide de animais abandonados.

O terceiro diz respeito às pessoas em geral, entre as quais ele cita:
- os puros – aqueles que são castos ou se mantiveram assim até o casamento, entre os quais ele se enquadra, afirmando inclusive a sua virgindade
- os impuros – adúlteros e fornicadores
- os fiéis seguidores de Deus, aos quais pede que pelo menos um ore e peça perdão a DEUS pelos seus pecados
- as pessoas generosas que financiam instituições pobres que cuidam de animais abandonados

Como vimos no artigo anterior, os nossos círculos de relacionamento são fundamentais, desempenhando papel fundamental no nosso desenvolvimento psíquico, o que significa basicamente a construção de uma autoimagem e autoestima positivas.

O primeiro círculo como falamos no último sábado é o da família. E para o rapaz o simples fato de não ter sido criado pelos seus Pais naturais, por si só pode ter sido encarado como uma primeira rejeição, podendo ter gerado um impacto negativo no seu desenvolvimento.

Pelas entrevistas concedidas pelos seus irmãos, até o momento um irmão que parece ser bem mais velho e uma irmã, esta com 49 anos, podemos presumir que ele foi adotado quando seus pais já tinham certa idade, o que é aparentemente confirmado pelo fato de que ambos já faleceram, a mãe há apenas dois anos.

Interessante perceber também que o pai, segundo cita o rapaz na carta, tinha intenção de deixar a casa de Sepetiba para ele, o que pode denotar, pelo menos aparentemente, que ele ja tinha a percepção da fragilidade do filho.

Portanto, falecidos os Pais, ele vê desfeita a base familiar, já que com os demais irmãos a relação não é próxima. Há de se verificar inclusive qual a percepção destes à época da adoção, como se posicionaram frente a esta novidade.

O segundo círculo, fundamental para o nosso desenvolvimento futuro é justamente o que construímos na escola, na qual ele não era uma pessoa de fácil relacionamento, segundo depoimento de colegas. Ele era quieto e não interagia seus colegas. Ou seja, neste círculo ele não conseguiu se afirmar de maneira positiva, devendo ter tido sérios problemas, como veremos mais adiante.

Além de perder a família, e não ter tido boa experiência na escola, também acabou fracassando no círculo do trabalho, o terceiro. Segundo consta, ele conseguiu um emprego em um almoxarifado de uma fábrica de alimentos em 2008, ou seja, antes do falecimento da sua mãe, mas acabou sendo demitido em função da baixa produtividade em agosto do ano passado.

Por último, segundo relato de um amigo, também no quarto círculo de relacionamentos, o de uma igreja, ele também não encontrou sustentação, tendo sido expulso da congregação junto com alguns companheiros em 2008. Após este episódio, segundo o amigo, ele começou a seguir uma seita na internet.

A partir deste ponto, e principalmente a partir da morte de sua mãe adotiva, todos os seus problemas certamente se agravaram, já que os principais e mais fundamentais círculos de relacionamento da sua vida estavam totalmente desestruturados, o que o levou a um  séri desequilíbrio psíquico.

Mas porque ele atacou a escola? Vários pontos são importantes:
Sendo a escola o círculo mais importante na estruturação da vida social da pessoa em termos futuros, sendo o primeiro passo para além dos limites do círculo familiar, podemos afirmar que grande parte de seus problemas estão relacionados a suas relações neste período, razão pela qual ela se transformou em alvo do seu ataque.

De acordo com uma de suas professoras, de nome Célia, “Wellington era um rapaz calado, tímido e muito atormentado pelos colegas de classe”, como também confirmou o seu amigo. Portanto, apesar dos depoimentos neutros de alguns outros colegas, o que é natural, a professora afirma categoricamente que ele foi vítima de bullying sim, assunto que comentei no último artigo, citando inclusive ataques deste tipo comuns nos Estados Unidos.

Mas apesar de ter sido vítima de bullying, algo no seu histórico da escola foi ainda mais marcante, superando os demais pontos negativos, como vai ficar claro na sua ação, já que ele não atacou professores e funcionários. Muito pelo contrário, ele mostrou claramente uma atitude seletiva, em determinado momento inclusive algo que pode ser interpretado como empatia, pois para um menino ele gritava, “relaxa gordinho, eu não vou te matar”. A utilização do termo “gordinho” pode ser resultado de uma percepção de que o menino também poderia ser alvo de bullying e que, portanto, precisava ser protegido e preservado. Em outras palavras, sua fúria tinha apenas um alvo, as meninas.

Segundo a Antropóloga Katherine Newman, cujos estudos levaram ao livro entitulado “Violência, as Raízes Sociais de Tiroteios em Escolas”, de 1999, as conclusões indicam que todos os atiradores eram do sexo masculino, garotos ou homnes, rejeitados e incapazes de lidar com suas relações sociais.

Da conclusão do trabalho da Dra Katherine, com a qual concordamos nas teses principais, podemos afirmar que este rapaz, em algum momento da sua caminhada na escola  fundamental, exatamente naquela escola, além do bullying ou como parte dele foi rejeitado por uma ou mais meninas, ou seja, pelo sexo feminino, o que é muito comum acontecer com meninos tímidos. Diante da sua frágil constituição psíquica este fato pesou significativamente no seu desenvolvimento, com desdobramentos futuros agravantes, como ficou demonstrado na sua carta.

Mas se durante o seu desenvolvimento psíquico posterior, ou seja, após o período da escola fundamental durante o qual ele foi vítima de bullying, através de outros círculos de relacionamento, ele tivesse conseguido estabelecer relações positivas, as experiências negativas que ele viveu na escola fundamental poderiam ter sido amenizadas e superadas, mesmo que jamais esquecidas. Isto é o que acontece com a maioria das crianças que passam por experiências deste tipo.

Mas a carta mostra que ao contrário do que se poderia esperar, a percepção que identificou a origem dos seus problemas naquele ambiente, certamente só aumentou em negatividade. E de fato, quando ele deixa claro que é virgem aos 23 anos, em um mundo que ele considera impuro, citando adultério e fornicação, esta uma imagem já elaborada posteriormente como conseqüência do processo, ele dá a exata dimensão de como esta rejeição foi se tornando devastadora em sua vida. É este problema que vai balizar a sua ação trágica. Chego a imaginar que sua visão de um mundo impuro, esta com viés de religiosidade radical, e neste sentido o componente é nitidamente sexual, pode também ter sido reforçada por fracassos posteriores. Apesar de ser apenas uma especulação, se este foi o caso, a sua inclusão no grupo dos imaginados “puros” representou a única forma encontrada para dar novo equilíbrio a sua vida. E até este nenhuma notícia dá conta de que ele tenha tido qualquer relacionamento afetivo, uma namorada por exemplo.

Sem a família, sem trabalho, isolado de todos e do mundo, e ao final, sem sexo e sem qualquer relacionamento afetivo, este também um ponto fundamental, já totalmente desequilibrado, ele concluiu por uma decisão radical, decidindo dar um fim a esta etapa da sua vida. Mas não sem antes buscar vingança.

Ele vai à escola e ataca as suas vítimas, as meninas, justamente aquelas que durante tantos anos povoaram sua mente como origem dos seus problemas. E esta é a razão pela qual ele não demonstra qualquer empatia com o sofrimento destas meninas. Afinal, o ato final foi meramente mecânico, provavelmente um ato imaginado e repetido na sua imaginação inúmeras vezes. Tudo foi planejado, pensado e ensaiado, como que numa peça de teatro. E ele era o ator principal, o diretor. Não poderia haver erros. Ele planejou inclusive sua morte, seu objetivo final.

E assim estava selado o destino para a tragédia de Realengo.

Mas para ele o desenrolar da história não terminou ali. No mundo, apesar de em sono profundo, restou uma mulher de valor, justamente sua mãe adotiva, ao lado da qual ele expressou o desejo de ser enterrado, fornecendo inclusive seu nome e cemitério, o que reforça seu desejo.

Para ele, estar ao lado da sua mãe no longo sono da morte representa a redenção, o descanso de que ele tanto necessita. O futuro ainda existe e é a VIDA, para a qual ele acredita será acordado por Jesus Cristo quando da sua volta, já perdoado pelo que fez em função das orações de um fiel servidor de DEUS.

Portanto, o seu plano vai muito além da tragédia que levou a sua morte e de tantos outras pessoas. Para ele, o futuro é o Paraíso, que ele chama VIDA, para qual será acordado com os seus entes queridos, principalmente sua mãe. Resumindo, ele construiu em sua mente desequilibrada um novo sentido para sua vida, uma história que não terminou na tragédia.

E assim, o ocorrido deu sentido, infelizmente, a tudo que eu quis expressar no último artigo, como alerta. Oxalá ele tivesse, como último recurso, conseguido estabelecer um círculo de relacionamentos positivo na Internet, como o fazem milhares de pessoas, o que certamente poderia ter evitado a tragédia. Mas provavelmente já era tarde.

O fato é que o desenvolvimento de uma vida, assim como a dele, se dá de forma muitas vezes aleatória, resultado de um jogo de forças que agem cegamente. De um lado, tudo que ele trouxe como bagagem para o mundo e de outro a sua relação no mundo, nos círculos que ele construiu, e que como vimos, estavam todos desestruturados.

Ele perdeu a família, teve sérios problemas na escola, não conseguiu evoluir no trabalho e também perdeu a referência religiosa tradicional. Em resumo, do ponto de vista da Filosofia Ribasa ele perdeu a própria humanidade, abrindo espaço para a tragédia.

E é desta forma cega, cheia de tormentos que nós temos visto ser conduzida a vida da humanidade sobre a terra. Um jogo brutal em que as nossas forças psíquicas ancestrais são de fato os atores do mundo e aonde mesmo diante de coisas estúpidas, como é a forma como lidamos com a natureza e com o nosso próximo muitas vezes, não conseguimos parar o processo.

A Filosofia Ribasa aponta para a necessidade de superarmos esta cegueira, tanto a nível individual como coletivo. É preciso que possamos desenvolver a nossa existência em novo patamar, superando este mundo que está chegando ao limite de sua inconsistência.

O que nos restou de positivo em nossa humanidade está sendo pulverizado. Estamos mergulhando novamente para uma espécie de barbárie. E esta onda tem invadido as escolas. Conversem com professores da escola fundamental e atestem o nível de desestruturação das nossas crianças.

Concluindo, quero afirmar que enxergar no rapaz de realengo apenas um louco, um fanático um esquizofrênico ou alguém que esteve em surto psicótico, é disfarçar o indisfarçável. Esta história envolve todos nós. Todos nós somos responsáveis pelo mundo que estamos vivendo. E desta perspectiva temos que buscar entender o que de fato aconteceu em Realengo, tomando o ocorrido como um alerta.

Nós precisamos mudar nossas vidas e desenvolver uma nova humanidade tanto dentro de nós como fora, em um mundo novo. Esta é a proposta da Filosofia Ribasa.

Abraços

A Construção de Quem Somos

(adaptação do programa apresentado na Rádio Mundial em 02 de abril de 2011. Para audição executar o player no link abaixo)

Acesso ao áudio do Programa Rádio Mundial de 02 de abril

Semanalmente, normalmente às sextas feiras, para fazer meu programa na Rádio Mundial, eu viajo de ônibus para São Paulo, saindo de Curitiba, onde moro atualmente. Em São Paulo sigo de metrô  e durante o trajeto fico observando as pessoas que comigo compartilham as estações, as escadarias e os vagões dos trens. A maioria delas expressa um cansaço, uma melancolia e muitas vezes grande tristeza. Dos que seguem sem companhia, todos sisudos, sem expressar mesmo que levemente um sorriso.

De tudo, me impressiona a distância, o afastamento entre as pessoas. Elas até em alguns momentos, saindo do seu torpor, observam umas as outras, mas nunca ou quase nunca se olham. Quando assim são flagradas, o olhar é prontamente desviado, evitando-se assim qualquer contato. Todo seguem sozinhos, mesmo rodeados de tantas pessoas.

E eu pergunto: porque que isto acontece? Porque nós não mantemos contato maior com as pessoas em situações como estas? A resposta pode parecer óbvia, mas qual é a resposta de cada um de nós a esta pergunta? No seu caso, caro leitor? Qual é a sua resposta? Pense um pouco sobre isto antes de seguir...
Será que você pensou que não mantém contato com as pessoas porque você não as conhece? Ou será que você pensou que além de não conhecer as pessoas você pode correr riscos em estabelecendo algum contato? Ou você não tem realmente qualquer interesse em manter contato com estas pessoas já que você está apenas se dirigindo ao seu destino e não quer se desviar dele.

O fato é que em meio à multidão, quando nos deslocamos de um lado para o outro, não temos nome e nem história. Não somos ninguém. Recentemente meu filho, que mora em São Paulo, ao me indicar que eu poderia fazer um cartão permanente para utilizar no metrô, como primeira vantagem citou o fato de que para fazer este cartão não se precisa sequer de documento, reforçando a imagem de que somos de fato apenas passageiros sem identidade.

Mas se não somos ninguém em meio à multidão enquanto nos deslocamos, em que momento passamos a adquirir nossa identidade, passamos a ser alguém?  Este status alcançamos normalmente quando chegamos ao nosso destino. Neste momento somos reconhecidos e passamos a ter nossa identidade reconhecida e reestabelecida por aqueles com quem nos relacionamos habitualmente.

E este é um fato. A nossa identidade e imagem que temos de nós mesmos em grande parte é construída com base na relação com os outros, aqueles que nos conhecem. Estas pessoas que compõem nossos círculos de relacionamentos formam o grande espelho através do qual nós nos enxergamos e nos definimos no mundo.
Com base no que estas pessoas dizem, pensam e também agem em relação a nós, construímos boa parte da imagem que temos de nós mesmos. E de acordo com esta auto-imagem estabelecemos as condições fundamentais para seguirmos nas nossas vidas, de forma mais ou menos equilibrada. Muitos dos nossos males espirituais decorrem de desequilíbrios advindos das nossas relações com as pessoas.

Este efeito é algo que normalmente não reconhecemos em sua real dimensão, e de fato, apenas quando as circunstâncias mudam nas nossas vidas, geralmente para o negativo, é que descobrimos o impacto e a força deste mecanismo.

Acredito que trazendo um exemplo negativo poderemos perceber a importância desta realidade.  
Tem sido muito abordada pela mídia a questão do bullying, principalmente nas escolas, em que agressões físicas ou psicológicas, muitas vezes ambas simultaneamente, são levadas a efeito de forma sistemática e continuada por crianças, normalmente líderes negativos, que perseguem seus colegas, normalmente crianças que apresentam alguma fragilidade, tímidas e retraídas.  As vítimas são profundamente afetadas em sua autoestima e autoimagem, impacto que pode levá-las ao suicídio ou à violência extrema, segundo estudos, caso dos ataques violentos que acontecem com certa freqüência nas escolas Americanas, com significativo número de vítimas fatais.

É importante lembrar que normalmente os demais colegas da escola, diante de agressões deste tipo, se comportam como cúmplices silenciosas, o que amplia a percepção negativa da criança atingida. E mais, normalmente os colegas que não estão envolvidos diretamente na ação do bullying, se afastam das vítimas, receosas de se transformarem nas próximas vítimas.

Imagine que você seja pai ou mãe de uma criança vítima de bullying. Será que você conseguiria dizer para o seu filho que os seus colegas de escola estão errados, que não é nada disso? E será que isto teria um efetivo impacto positivo na sua autoimagem, autoestima e estado de ânimo?

Vamos mais além.Você caro leitor em algum momento da sua vida já foi vítima de bullying, na escola, no trabalho, na família ou no clube que você freqüenta? Já vivenciou os impactos devastadores dessa prática? Eu mesmo já fui vítima de bullying quando criança, em várias oportunidades, com maior ou menor impacto para minha vida. Lembro muito bem que por ter sido educado em um ambiente familiar no qual o desenvolvimento cultural era muito incentivado, especialmente da música, logo cedo eu me dediquei a ela. Aos 6 anos tocava violão e aos 10 iniciei os estudos de violino. Já aos 11 tocava em orquestra de adultos. Na minha escola regular, no entanto, eu era alvo de piadas constantes justamente porque tocava violino. O impacto era tão devastador que na rua, indo ou voltando para minhas aulas, carregando a minha caixa com o violino, ao avistar colegas da escola, eu mudava de lado para não ser visto. Esta prática repetida influenciou significativamente a construção da imagem que eu tinha de mim mesmo naquele momento. Mas vejam que o mundo dá voltas e esta situação se alterou anos mais tarde, quando estudante de Engenharia na PUC do Rio de Janeiro. Lá fui convidado a participar de shows de música com colegas da faculdade. E, para mim, quase que milagrosamente, tocar violino, passou a ser algo admirado pelos meus pares e por todos os meus colegas, era o máximo. Eu estava redimido.

Portanto, na medida em que vamos construindo e freqüentando nossos círculos de relacionamentos, que podem inclusive ir mudando no decorrer das nossas vidas, vamos construindo nossas identidades, lembrando que este processo não é unilateral, pois se por um lado depende dos outros, também está diretamente ligado às nossas características pessoais, definidas inclusive pela bagagem que trazemos quando chegamos a este planeta.

Mas quais são estes círculos de relacionamento que influenciam a construção da nossa autoimagem, da nossa identidade. Vejamos os mais tradicionais, aqueles dos quais quase todos nós participamos:
- Inicialmente temos o círculo da família, que é o primeiro da nossa vida. E este com suas variações será a base de grande parte da nossa história, sendo, no entanto, também um patamar, um passado a ser superado. Gibran Khalil Gibran em seu livro O PROFETA afirma:
“Vossos filhos não são vossos filhos,
São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma
Vêm através de vós, mas não de vós
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Se em determinado momento precisamos nos projetar rapidamente para longe da família, a elas voltamos em um momento futuro, quando nós mesmos constituímos um novo círculo familiar, transformando-nos novamente em arcos, desta vez para nossos próprios filhos.
 - O segundo círculo é o dos amigos da vizinhança e colegas da escola, como já vimos, com papel importante para a criança, pois junto a estes ela dá os primeiros passos rumo ao seu futuro, para além dos limites do círculo da família. Esta é a razão pela qual, como comentamos, os casos de bullying não conseguem ser amenizados pelos pais com facilidade, ou seja, as crianças, na construção da sua imagem para o futuro dão maior importância àquela que seus colegas fazem dela do que a de seus pais.
 - O terceiro é o das relações profissionais, do trabalho, podendo ser mais ou menos amplo, dependendo das suas características.
 - O quarto é composto pelas demais relações sociais. Participação em Igrejas e Grupos Espirituais, Clubes de Recreação, de Serviço, Associações e Clubes Esportivos, Movimentos Políticos, inclusive de orientação Sexual, Atividades Artísticas – Música, Teatro, Artes Plástica, enfim, tudo mais em que nos envolvemos nas nossas vidas.

Mas ao mesmo tempo em que cada círculo contribui na construção da nossa autoimagem, da nossa identidade, dando espaço para nossa expressão pessoal, do que trazemos como bagagem, normalmente nenhum deles permite a nossa plena expressão.

Se você mora em uma cidade pequena, por exemplo, você precisa considerar a própria cidade como sendo um dos seus círculos, inclusive muito poderoso, pois nestas cidades, de uma forma ou de outra as pessoas se conhecem e se controlam, podemos assim dizer.

E é neste sentido, na possibilidade de criação de novas oportunidades para expressão do ser, que o mundo tem se transformado em espaço mais democrático para todos nós. E esta é uma das características da cidade de São Paulo. Aqui, pelo efeito do anonimato gerado pelas multidões, como vimos no metrô, abre-se espaço gigantesco para desenvolvimento de todos os movimentos imagináveis de expressão humana. A única regra é que se mantenham parâmetros aceitáveis de convivência civilizada entre estas diferentes formas de expressão. Aqui em São Paulo a teoria da moral e dos bons costumes, tão comum nas cidades do interior, onde qualquer um pode ficar “falado”, caiu por terra. Cada um, dentro de certos limites é dono do seu destino. Muitas vezes inclusive, características que desenvolvemos em certos círculos, podem ser inimagináveis para as pessoas que compõe os outros círculos dos nossos relacionamentos, já que com grande facilidade estas pessoas, dos diferentes círculos, não convivem entre si.

Mas as coisas não param por aí. Se a nossa expressão e desenvolvimento encontram muitas vezes barreiras temporais e até mesmo físicas, o advento da Internet veio ampliar estes horizontes.No site chamado SECOND LIFE (http://secondlife.com/) , que significa literalmente SEGUNDA VIDA, você tem o poder de redefinir tudo que diz respeito a sua pessoa, construindo você mesmo a sua  imagem, o seu avatar, de acordo com os seus desejos e percepções.Lançado mundialmente em 2003, interessado nesta nova realidade, participei em 2007, momento em que teve o seu auge, de um seminário realizado aqui em São Paulo, patrocinado pela revista INFO Exame. Estavam presentes representantes da TAM, da IBM, da Volkswagen, Nokia, mostrando o interesse que o projeto despertou à época.

Apesar de ter sofrido uma queda, que segundo analistas deve-se a dificuldades teconológicas, o número de habitantes do SECOND LIFE ainda é superior a 10 milhões, ou seja, uma realidade que certamente tem futuro certo.

Sobre o universo de possibilidades que se abrem para os habitantes deste mundo virtual, diz ser o SECOND LIFE um lugar para se conectar, para comprar, para trabalhar, para amar, para explorar, para ser diferente, para ser você mesmo. E continua afirmando: seja diferente, seja você mesmo, liberte seu ser, mude sua mente, liberte sua mente, mude seu visual, ame seu visual, ame sua vida. Enfim, no SECOND LIFE você pode criar, projetar, comprar, vender, construir e se relacionar abertamente, sem os riscos do mundo real, e também, principalmente ampliar enormemente seus os seus círculos de relacionamentos sem o peso das suas marcas, da sua história. Nem mesmo sua idade, sua aparência física, enfim, limites que você pode imaginar ter, lá precisam existir.

Mas com este mundo virtual vem também os questionamentos sobre esta nova realidade. Será que gastar horas e horas nestes ambientes virtuais, nestas vidas paralelas significa efetivamente viver? Apesar da resposta inicial mais óbvia ser um sonoro NÃO, penso que temos que refletir sobre este assunto com mais calma e atenção.

Acredito que no futuro nós poderemos sim viver uma parte das nossas vidas em realidades virtuais, o que literalmente poderá nos libertar de muitas das nossas amarras psíquicas, físicas e temporais. Afinal, o que é viver?

Apesar de estarmos presos à nossas grades psíquicas ancestrais que influenciam nossos comportamentos, mantendo-nos presos ao passado da humanidade, o exercício nos mundos virtuais, ainda que carregado inicialmente pelas mesmas grades, pode ser uma excelente ferramenta para aprendermos a nos libertar destas forças. 

Indo mais além, podemos imaginar o dia em que as nossas obras, que tanto impactam e prejudicam o meio ambiente, possam ser construídas em mundos virtuais, neste caso sem impacto ambiental. Poderemos estudar, viajar, e vencendo inclusive as barreiras do tempo e do espaço.

Quem sabe seja uma boa idéia iniciarmos também o mundo novo do qual tenho falado neste espaço virtual.. Assim, poderemos exercitar e desenvolver as aptidões que serão necessárias para sua realização sem os limites do chamado mundo real, pois este desenvolvimento depende basicamente das nossas energias sutis, de nível espiritual, que você pode exercer plenamente no mundo virtual, sem limitações. Vamos pensar nesta hipótese!

E assim um dia quem sabe, andando no metrô nós não mais evitaremos o olhar, a conexão, o contato com pessoas desconhecidas. Teremos outra consciência, descobriremos que estamos todos unidos, que não somos desconhecidos, estaremos vivendo em outro patamar, superando desta forma os obstáculos que limitam nossas vidas atualmente e que nos levam, como humanidade, para um destino incerto.

Que assim seja!