Áudio Programa Rádio Mundial 23/04/2011
É chegada novamente a Páscoa, tempo em que comemoramos a ressurreição de Jesus Cristo, tempo em que somos lembrados do convite que ELE nos fez como filho de DEUS, de ressurgirmos para uma nova VIDA a partir da transformação de cada um de nós através do AMOR, obedecendo a um dos seus mandamentos que diz: AMA TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO!Em um mundo cada vez mais afastado deste ensinamento de Jesus Cristo, um mundo em que o egoísmo reina quase que absoluto, um mundo em que convivemos com a realidade da violência descabida, como a que nos afrontou no Rio de Janeiro, na tragédia que se abateu sobre a escola de Realengo, hoje, às vésperas do Domingo de Páscoa, vamos buscar neste mundo tão escuro, uma história real, comovente e positiva sobre o impacto que o AMOR traz à VIDA daqueles que seguem o ensinamento que nos trouxe Jesus Cristo.
Nesta semana, na última quinta-feira resolvi ir ao cinema e acabei assistindo o filme francês “Homens e Deuses”, sobre o qual não havia lido ou ouvido qualquer comentário. Ele é baseado em sequência de fatos que se passaram na Argélia na década de 90, período em que ela esteve mergulhada em guerra civil deflagrada por um golpe militar em 1992.
Em termos históricos, para compor o cenário, lembro que a Argélia foi colônia francesa, no período compreendido entre 1830, quando iniciou sua conquista colonialista, e 1962, quando foi declarada sua independência pelo Presidente Francês Charles de Gaulle, após uma longa guerra civil iniciada em 1954. Durante todo este período, no entanto, e até os dias atuais, grupos de orientação fundamentalista islâmica lutam para implantar um Estado de orientação Muçulmana, movimento intensificado após o Golpe Militar de 1992, que transformou a Argélia em cenário e palco de muitas atrocidades.
É dentro deste contexto que se passa e é contada a história de oito monges no filme, todos Monges Cistercienses, uma ordem monástica francesa fundada no ano de 1098 e que se manteve na Argélia mesmo depois da declaração de sua independência, instalados nas montanhas de Tibhirine no Mosteiro de Notre Dame de Atlas. Estes monges conviviam totalmente integrados à comunidade muçulmana local, tendo desenvolvido profundos laços de respeito e de confiança. O prior Padre Christian, falava fluentemente o idioma árabe local e era conhecedor da cultura islâmica, inclusive do Corão.
A partir de 1992, em função da Guerra Civil, os monges passaram a ser ameaçados pelo terror que assolava também a região de Tibhirine, uma ameaça que representava inclusive risco para suas vidas.
A história se desenvolve em diversas dimensões. Na dimensão política, onde são abordadas questões ligadas ao colonialismo francês na Argélia e suas consequências negativas, na violência dos grupos extremistas fundamentalistas islâmicos e por último, que é o que quero ressaltar aqui, na dimensão do conflito interior vivido por cada um dos monges que encaravam a possibilidade de retornarem à França, decisão que cabia a cada um deles, individualmente, assim abandonando suas vidas no Mosteiro, ou ficarem, correndo o risco de uma morte brutal.
É nesta dimensão que o filme torna-se importante para nós que estamos trabalhando com a Filosofia Ribasa, ou seja, no comprometimento que cada um de nós deve assumir frente ao destino, seu próprio e do mundo. Nós somos, cada um de nós, indivíduos situados dentro de um mundo complexo e poderoso. E para a maioria de nós, a sensação é de que não somos os responsáveis pelo destino do mundo e muitas vezes nem pelo nosso próprio. De fato somos engolidos pela complexidade e poder de tudo que nos cerca, restando apenas, muitas vezes, a sensação ou de impotência ou de esperança de que o futuro possa ser garantido e seguro, pelo menos para nós.
Recorrendo novamente a imagem já utilizada diversas vezes aqui no programa, nós vivemos como que dentro de um grande navio, ocupados e mergulhados nos afazeres próprios da sua realidade. E enquanto estamos ocupados com a nossa história individual, vivendo apenas o dia a dia dentro do navio, nos seus corredores, salões, salas de máquinas, não conseguimos vislumbrar a direção em que ele segue. Somos todos, ou pelo menos nos sentimos como meros passageiros, na verdade prisioneiros de seus labirintos, para muitos, tão ricamente adornados.
Assim, nós tentamos conseguir o melhor emprego possível, com uma boa renda que permita a realização dos nossos sonhos e planos, entre eles o de subirmos para um melhor andar dentro do navio, tentamos também dar aos nossos filhos a melhor educação e formação imaginável, e por último, tentamos ficar afastados do perigo que ronda nossas vidas neste mundo tão repleto de violência.
Enfim, vamos tocando nossas vidas como se fossemos pequenos grãos de areia na imensidão de uma grande praia, em meio a bilhões de pessoas. Da mesma forma viviam também aqueles monges franceses no seu cotidiano, lá na Argélia, integrados à comunidade muçulmana a quem respeitavam e prestavam alguns serviços, principalmente através da medicina, com atendimento médico.
Mas esta paz em que eles viviam, a paz dos grãos de areia na grande praia do mundo foi abalada. E eles se viram diante de um dilema, de um lado, a possibilidade de serem martirizados por terroristas em meio a uma guerra civil promovida por extremistas islâmicos e de outro, de sem nenhum impedimento maior, a não ser a decisão de cada um deles, de retornarem à segurança, sem riscos, de uma vida na França ou em outro lugar “seguro”.
Primeiramente, logo após a primeira invasão do Mosteiro, que acabou acontecendo em 1993,, o líder da congregação, Padre Christian se recusou a aceitar a proteção militar do exército às instalações do Mosteiro Atlas oferecida pelo Governo Argelino. Esta atitude, tomada unilateralmente, de certa forma desagradou alguns monges da Congregação que em uma de suas reuniões regulares, colocaram em discussão sobre o assunto, ou seja, se deveriam permanecer no mosteiro diante dos riscos representado pelo terror que se alastrava pela região, ou se deveriam partir para um lugar mais seguro ou até mesmo à França.
Mesmo bastante divididos, uns favoráveis e outros contrários à partida, eles decidiram postergar a decisão, concluindo pela necessidade de dedicarem um tempo maior para reflexão de cada um deles sobre o assunto. No nosso entender, de acordo com o que a Filosofia Ribasa aponta, esta postergação deveu-se ao fato de que diante do novo cenário, algo nunca antes imaginado, eles foram colocados a prova em um nível bastante profundo, algo que precisava ser trabalhado.
Assim, vejam que apesar de eles terem superado e sublimado grande parte das suas forças psíquicas ancestrais, vivendo em castidade, humildade e também a serviço do próximo no Mosteiro, a nova realidade trouxe a tona parte das forças psíquicas ancestrais que ainda jaziam adormecidas dentro de cada um deles, colocando em xeque todo sentido da vida que eles tinham abraçado.
A este respeito ocorre-me contar a estória de um monarca árabe que durante uma de suas viagens, certa vez chegou a uma localidade onde foi muito bem recebido pelos seus moradores. A passagem de sua caravana, as pessoas jogavam flores, tapetes, enfim, objetos que adornavam o caminho. Em determinado ponto, no entanto, a caravana passou por uma prisão, repleta de assassinos, ladrões, muitos deles leprosos. Pelas grades, estes infelizes passaram a jogar seus trapos de roupas, suas vasilhas de comida e outros objetos pessoais, uma cena aparentemente degradante se comparada com as anteriores. Perguntado sobre o que achara da sua passagem pela localidade, o Monarca destacou a atitude dos condenados, afirmando que se os demais habitantes da cidade haviam atirado apenas o que não lhes fazia falta, estes, os condenados, já que suas vidas dependiam em grande parte do Monarca, haviam atirado tudo que lhes era de mais caro.
É também como a receita conhecida de OMELETE COM BACON. Nesta receita enquanto a galinha participa apenas com um ou mais ovos, preservando sua vida, o porco entra por inteiro, entregando a própria vida.
No caso dos Monges do Mosteiro de Atlas, foi somente no momento em que eles tiveram que dispor do que lhes era mais caro, ou seja, suas próprias vidas, que eles se deram conta e passaram a refletir sobre se de fato queriam ou não levar às últimas consequências os votos que haviam feito quando das suas ordenações, estes feitos sob circunstâncias que não permitiam antever qualquer cenário futuro que implicasse em risco de vida.
Divididos, alguns se imaginaram apenas como estrangeiros cumprindo uma missão que não envolvia a possibilidade do martírio, razão pela qual pensavam em partir. Diante do risco, efetivamente tiveram medo e não enxergaram inicialmente qualquer razão para permanecerem no local, já que não se consideravam responsáveis pelos conflitos que naquele momento representavam uma ameaça a suas vidas. Eles se imaginaram separados de todo o entorno, assim como nós nos imaginamos sempre.
Mas a visão quântica, da qual temos falado, foi lentamente sendo construída. Primeiramente eles passaram a ponderar sobre a importância de seus círculos de relacionamentos, dos quais já tratamos em artigos anteriores. Assim, em determinado momento do filme um diálogo trata da relação de um dos monges com sua família.
Em outro diálogo, com uma autoridade local, eles foram lembrados da história de colonização da França na Argélia e suas consequências, o que fez com que percebessem a dimensão da sua inserção histórica.
Dentro da comunidade, eles também perceberam o quanto representavam para aquele povo simples que neles depositava tanta confiança. Em conversa com um casal, em determinado momento um dos monges afirma: “nós monges somos como aves em um galho, decidindo apenas quando vamos voar”. E a mulher prontamente respondeu “não, nós é que somos as aves e vocês são os galhos sobre os quais repousamos nossas esperanças”.
Por último, mesmo diante do medo que desencadeia a reação de fuga, uma reação ancestral, para eles inicialmente justificável já que ainda se imaginavam como estrangeiros em missão própria de tempos de paz, aos poucos eles deixaram brotar a força maior do espírito, que está direcionada para além dos nossos medos, das nossas forças psíquicas ancestrais e dos limites da nossa individualidade.
Passado o temor inicial, foi através do AMOR que eles puderam se inserir de forma absoluta dentro da rede que os unia irremediavelmente a todas as circunstâncias em que eles se encontravam. Eles poderiam ter partido, mas por unanimidade resolveram ficar e enfrentar seus medos.
Assim, como temos dito nos nossos programas, todos nós estamos conectados em diversos níveis a todos e tudo que nos cercam, a todas as circunstâncias do mundo em que estamos inseridos. E esta conexão, a consciência dela, traduz o que temos chamado de estado quântico.
E ainda que este não seja uma realidade para todos nós, já que não característico da nossa natureza ancestral, ele representa o passo adiante, uma dimensão dentro da nossa caminhada espiritual, um estado que vamos desenvolver, conforme temos afirmado aqui no nosso programa.
Estes monges diante do perigo eminente, mesmo com a ativação de algumas forças ancestrais que ainda estavam adormecidas, forças que naturalmente os teriam levado à fuga, conseguiram mudar de estado e se reconheceram em novo patamar de existência, no qual deixaram de ser apenas seres individuais, isolados, desconectados passando a pautar suas vidas por uma nova realidade, esta muito mais rica e ampla.
Não foi com base nas suas expectativas pessoais que eles mudaram de estado. De fato, depois do tempo dedicado a reflexão, a muitas conversas e trocas, todos sem exceção, reafirmaram seu votos, ou provavelmente os afirmaram pela primeira vez com a profundidade e com o comprometimento exigidos pela situação, decidindo pela permanência no Mosteiro, apesar de todos os riscos.
Ainda que envolvidos em uma história da qual não participaram diretamente, eles perceberam a dimensão e amplitude das conexões que os uniam a todas as circunstâncias em que se encontravam. Eles não eram como imaginaram inicialmente, simplesmente estrangeiros em uma terra distante. Eles perceberam que eles eram a França colonizadora, o apoio para o povo local, a imagem distorcida dos extremistas islâmicos, e por último, a mão de DEUS agindo através deles, do exemplo espiritual que poderiam deixar como testemunho do AMOR incondicional ao próximo que passaram a viver.
Imbuído e imerso neste estado de AMOR, um dos monges, então com 82 anos, Irmão Luc, médico formado, que chegava a atender até 150 pessoas por dia em seu consultório no Mosteiro, em determinado momento afirmou: “eu não tenho medo do exército e também não tenho dos terroristas, pois eu sou livre”.
Mas a que tipo de liberdade ele se referia? Será que ele se referia a liberdade na forma como nós a entendemos, como o mundo a defende, ou seja, uma liberdade que permite a livre expressão e realização dos nossos desejos, sonhos e planos, de podermos fazer o que bem entendemos, ou seja, uma liberdade egoísta?
Ou ele defende outra liberdade, uma liberdade que está muito além, a liberdade do AMOR, que mais do que um sentimento, como muitas vezes é encarado por nós, é um estado de ser, um estado de ser que tem a força de transformar as nossas vidas, estendendo suas asas para tudo que nos cerca, já que ele, o AMOR se transforma em realidade apenas quando direcionado ao que não está em nós. É assim que ele nos eleva para além de nós mesmos, subjugando as forças ancestrais da nossa natureza, transformando as nossas vidas em pura espiritualidade e, portanto, nos mostrando uma nova liberdade, esta a única verdadeira.
A liberdade da qual ele fala é afirmada em relação ao mundo e sua estreiteza. Imerso no AMOR que o conecta a DEUS em um plano superior, ele se transforma em ferramenta para realização do que tem que ser, do servir, do AMAR, já sem amarras neste mundo, nem mesmo à sua VIDA na dimensão física.
E é deste AMOR que temos falado em nossos artigos, deste AMOR que estabelece os fundamentos para uma nova vida, um novo mundo, um mundo em que vivemos em um patamar superior de existência.
AMA teu próximo como a ti mesmo! Esta foi a grande mensagem, o grande desafio que Jesus Cristo trouxe e lançou para todos nós seres humanos, ele, que nos amou de tal forma que deu sua vida por nós. É este ensinamento que precisamos relembrar e assumir como missão nesta semana de Páscoa.
Quanto aos monges, em 1996 seis deles foram seqüestrados e mortos pelos integrantes do Grupo Islâmico Armado. Apesar do fim aparentemente trágico, como eu afirmei no início deste artigo, os monges nos deixaram um legado positivo, um legado que chega até nós através deste filme, agora aqui no Brasil.
Na França, o filme foi aclamado no Festival de Cannes, tendo sido vencedor do Grande Prêmio do Júri em 2010. Nas primeiras cinco semanas após o seu lançamento ele foi assistido por mais de cinco milhões de pessoas.
Por fim, o exemplo deixado por eles, que chega até nós, foi captado pela crítica do jornal Francês Le Monde que afirma que: “Os Monges de Tibhirine encarnam tudo que o público, da esquerda e da direita, já não encontra na sociedade: a nobreza de espírito, um sentido de sacrifício, liberdade, sinceridade, ecologia, meditação e reflexão diária sobre a morte”.
Desejo a você leitor uma excelente Páscoa. Que você possa atender ao chamado e a exemplo dos Monges de Tibhirine encontrar e aprender a viver neste estado do AMOR incondicional.
Um grande abraço
Assistí ao filme ontem aqui em Puebla/México e como também não tinha ouvido ou lido nada a respeito até então, busquei e tive a felicidade de encontrar seu relato detalhado sobre os episódios que geraram o filme. Quero agradecer-lhe pela riqueza de detalhes e dizer que o filme me impressionou muito. Independentemente do aspecto religioso que motivou todos aqueles monges, creio que a lição que eles nos deixaram foi inspiradora, até para mim que não sou adepta à qualquer religião. Saudações fraternais! Vera
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