domingo, 10 de abril de 2011

A Construção de Quem Somos

(adaptação do programa apresentado na Rádio Mundial em 02 de abril de 2011. Para audição executar o player no link abaixo)

Acesso ao áudio do Programa Rádio Mundial de 02 de abril

Semanalmente, normalmente às sextas feiras, para fazer meu programa na Rádio Mundial, eu viajo de ônibus para São Paulo, saindo de Curitiba, onde moro atualmente. Em São Paulo sigo de metrô  e durante o trajeto fico observando as pessoas que comigo compartilham as estações, as escadarias e os vagões dos trens. A maioria delas expressa um cansaço, uma melancolia e muitas vezes grande tristeza. Dos que seguem sem companhia, todos sisudos, sem expressar mesmo que levemente um sorriso.

De tudo, me impressiona a distância, o afastamento entre as pessoas. Elas até em alguns momentos, saindo do seu torpor, observam umas as outras, mas nunca ou quase nunca se olham. Quando assim são flagradas, o olhar é prontamente desviado, evitando-se assim qualquer contato. Todo seguem sozinhos, mesmo rodeados de tantas pessoas.

E eu pergunto: porque que isto acontece? Porque nós não mantemos contato maior com as pessoas em situações como estas? A resposta pode parecer óbvia, mas qual é a resposta de cada um de nós a esta pergunta? No seu caso, caro leitor? Qual é a sua resposta? Pense um pouco sobre isto antes de seguir...
Será que você pensou que não mantém contato com as pessoas porque você não as conhece? Ou será que você pensou que além de não conhecer as pessoas você pode correr riscos em estabelecendo algum contato? Ou você não tem realmente qualquer interesse em manter contato com estas pessoas já que você está apenas se dirigindo ao seu destino e não quer se desviar dele.

O fato é que em meio à multidão, quando nos deslocamos de um lado para o outro, não temos nome e nem história. Não somos ninguém. Recentemente meu filho, que mora em São Paulo, ao me indicar que eu poderia fazer um cartão permanente para utilizar no metrô, como primeira vantagem citou o fato de que para fazer este cartão não se precisa sequer de documento, reforçando a imagem de que somos de fato apenas passageiros sem identidade.

Mas se não somos ninguém em meio à multidão enquanto nos deslocamos, em que momento passamos a adquirir nossa identidade, passamos a ser alguém?  Este status alcançamos normalmente quando chegamos ao nosso destino. Neste momento somos reconhecidos e passamos a ter nossa identidade reconhecida e reestabelecida por aqueles com quem nos relacionamos habitualmente.

E este é um fato. A nossa identidade e imagem que temos de nós mesmos em grande parte é construída com base na relação com os outros, aqueles que nos conhecem. Estas pessoas que compõem nossos círculos de relacionamentos formam o grande espelho através do qual nós nos enxergamos e nos definimos no mundo.
Com base no que estas pessoas dizem, pensam e também agem em relação a nós, construímos boa parte da imagem que temos de nós mesmos. E de acordo com esta auto-imagem estabelecemos as condições fundamentais para seguirmos nas nossas vidas, de forma mais ou menos equilibrada. Muitos dos nossos males espirituais decorrem de desequilíbrios advindos das nossas relações com as pessoas.

Este efeito é algo que normalmente não reconhecemos em sua real dimensão, e de fato, apenas quando as circunstâncias mudam nas nossas vidas, geralmente para o negativo, é que descobrimos o impacto e a força deste mecanismo.

Acredito que trazendo um exemplo negativo poderemos perceber a importância desta realidade.  
Tem sido muito abordada pela mídia a questão do bullying, principalmente nas escolas, em que agressões físicas ou psicológicas, muitas vezes ambas simultaneamente, são levadas a efeito de forma sistemática e continuada por crianças, normalmente líderes negativos, que perseguem seus colegas, normalmente crianças que apresentam alguma fragilidade, tímidas e retraídas.  As vítimas são profundamente afetadas em sua autoestima e autoimagem, impacto que pode levá-las ao suicídio ou à violência extrema, segundo estudos, caso dos ataques violentos que acontecem com certa freqüência nas escolas Americanas, com significativo número de vítimas fatais.

É importante lembrar que normalmente os demais colegas da escola, diante de agressões deste tipo, se comportam como cúmplices silenciosas, o que amplia a percepção negativa da criança atingida. E mais, normalmente os colegas que não estão envolvidos diretamente na ação do bullying, se afastam das vítimas, receosas de se transformarem nas próximas vítimas.

Imagine que você seja pai ou mãe de uma criança vítima de bullying. Será que você conseguiria dizer para o seu filho que os seus colegas de escola estão errados, que não é nada disso? E será que isto teria um efetivo impacto positivo na sua autoimagem, autoestima e estado de ânimo?

Vamos mais além.Você caro leitor em algum momento da sua vida já foi vítima de bullying, na escola, no trabalho, na família ou no clube que você freqüenta? Já vivenciou os impactos devastadores dessa prática? Eu mesmo já fui vítima de bullying quando criança, em várias oportunidades, com maior ou menor impacto para minha vida. Lembro muito bem que por ter sido educado em um ambiente familiar no qual o desenvolvimento cultural era muito incentivado, especialmente da música, logo cedo eu me dediquei a ela. Aos 6 anos tocava violão e aos 10 iniciei os estudos de violino. Já aos 11 tocava em orquestra de adultos. Na minha escola regular, no entanto, eu era alvo de piadas constantes justamente porque tocava violino. O impacto era tão devastador que na rua, indo ou voltando para minhas aulas, carregando a minha caixa com o violino, ao avistar colegas da escola, eu mudava de lado para não ser visto. Esta prática repetida influenciou significativamente a construção da imagem que eu tinha de mim mesmo naquele momento. Mas vejam que o mundo dá voltas e esta situação se alterou anos mais tarde, quando estudante de Engenharia na PUC do Rio de Janeiro. Lá fui convidado a participar de shows de música com colegas da faculdade. E, para mim, quase que milagrosamente, tocar violino, passou a ser algo admirado pelos meus pares e por todos os meus colegas, era o máximo. Eu estava redimido.

Portanto, na medida em que vamos construindo e freqüentando nossos círculos de relacionamentos, que podem inclusive ir mudando no decorrer das nossas vidas, vamos construindo nossas identidades, lembrando que este processo não é unilateral, pois se por um lado depende dos outros, também está diretamente ligado às nossas características pessoais, definidas inclusive pela bagagem que trazemos quando chegamos a este planeta.

Mas quais são estes círculos de relacionamento que influenciam a construção da nossa autoimagem, da nossa identidade. Vejamos os mais tradicionais, aqueles dos quais quase todos nós participamos:
- Inicialmente temos o círculo da família, que é o primeiro da nossa vida. E este com suas variações será a base de grande parte da nossa história, sendo, no entanto, também um patamar, um passado a ser superado. Gibran Khalil Gibran em seu livro O PROFETA afirma:
“Vossos filhos não são vossos filhos,
São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma
Vêm através de vós, mas não de vós
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Se em determinado momento precisamos nos projetar rapidamente para longe da família, a elas voltamos em um momento futuro, quando nós mesmos constituímos um novo círculo familiar, transformando-nos novamente em arcos, desta vez para nossos próprios filhos.
 - O segundo círculo é o dos amigos da vizinhança e colegas da escola, como já vimos, com papel importante para a criança, pois junto a estes ela dá os primeiros passos rumo ao seu futuro, para além dos limites do círculo da família. Esta é a razão pela qual, como comentamos, os casos de bullying não conseguem ser amenizados pelos pais com facilidade, ou seja, as crianças, na construção da sua imagem para o futuro dão maior importância àquela que seus colegas fazem dela do que a de seus pais.
 - O terceiro é o das relações profissionais, do trabalho, podendo ser mais ou menos amplo, dependendo das suas características.
 - O quarto é composto pelas demais relações sociais. Participação em Igrejas e Grupos Espirituais, Clubes de Recreação, de Serviço, Associações e Clubes Esportivos, Movimentos Políticos, inclusive de orientação Sexual, Atividades Artísticas – Música, Teatro, Artes Plástica, enfim, tudo mais em que nos envolvemos nas nossas vidas.

Mas ao mesmo tempo em que cada círculo contribui na construção da nossa autoimagem, da nossa identidade, dando espaço para nossa expressão pessoal, do que trazemos como bagagem, normalmente nenhum deles permite a nossa plena expressão.

Se você mora em uma cidade pequena, por exemplo, você precisa considerar a própria cidade como sendo um dos seus círculos, inclusive muito poderoso, pois nestas cidades, de uma forma ou de outra as pessoas se conhecem e se controlam, podemos assim dizer.

E é neste sentido, na possibilidade de criação de novas oportunidades para expressão do ser, que o mundo tem se transformado em espaço mais democrático para todos nós. E esta é uma das características da cidade de São Paulo. Aqui, pelo efeito do anonimato gerado pelas multidões, como vimos no metrô, abre-se espaço gigantesco para desenvolvimento de todos os movimentos imagináveis de expressão humana. A única regra é que se mantenham parâmetros aceitáveis de convivência civilizada entre estas diferentes formas de expressão. Aqui em São Paulo a teoria da moral e dos bons costumes, tão comum nas cidades do interior, onde qualquer um pode ficar “falado”, caiu por terra. Cada um, dentro de certos limites é dono do seu destino. Muitas vezes inclusive, características que desenvolvemos em certos círculos, podem ser inimagináveis para as pessoas que compõe os outros círculos dos nossos relacionamentos, já que com grande facilidade estas pessoas, dos diferentes círculos, não convivem entre si.

Mas as coisas não param por aí. Se a nossa expressão e desenvolvimento encontram muitas vezes barreiras temporais e até mesmo físicas, o advento da Internet veio ampliar estes horizontes.No site chamado SECOND LIFE (http://secondlife.com/) , que significa literalmente SEGUNDA VIDA, você tem o poder de redefinir tudo que diz respeito a sua pessoa, construindo você mesmo a sua  imagem, o seu avatar, de acordo com os seus desejos e percepções.Lançado mundialmente em 2003, interessado nesta nova realidade, participei em 2007, momento em que teve o seu auge, de um seminário realizado aqui em São Paulo, patrocinado pela revista INFO Exame. Estavam presentes representantes da TAM, da IBM, da Volkswagen, Nokia, mostrando o interesse que o projeto despertou à época.

Apesar de ter sofrido uma queda, que segundo analistas deve-se a dificuldades teconológicas, o número de habitantes do SECOND LIFE ainda é superior a 10 milhões, ou seja, uma realidade que certamente tem futuro certo.

Sobre o universo de possibilidades que se abrem para os habitantes deste mundo virtual, diz ser o SECOND LIFE um lugar para se conectar, para comprar, para trabalhar, para amar, para explorar, para ser diferente, para ser você mesmo. E continua afirmando: seja diferente, seja você mesmo, liberte seu ser, mude sua mente, liberte sua mente, mude seu visual, ame seu visual, ame sua vida. Enfim, no SECOND LIFE você pode criar, projetar, comprar, vender, construir e se relacionar abertamente, sem os riscos do mundo real, e também, principalmente ampliar enormemente seus os seus círculos de relacionamentos sem o peso das suas marcas, da sua história. Nem mesmo sua idade, sua aparência física, enfim, limites que você pode imaginar ter, lá precisam existir.

Mas com este mundo virtual vem também os questionamentos sobre esta nova realidade. Será que gastar horas e horas nestes ambientes virtuais, nestas vidas paralelas significa efetivamente viver? Apesar da resposta inicial mais óbvia ser um sonoro NÃO, penso que temos que refletir sobre este assunto com mais calma e atenção.

Acredito que no futuro nós poderemos sim viver uma parte das nossas vidas em realidades virtuais, o que literalmente poderá nos libertar de muitas das nossas amarras psíquicas, físicas e temporais. Afinal, o que é viver?

Apesar de estarmos presos à nossas grades psíquicas ancestrais que influenciam nossos comportamentos, mantendo-nos presos ao passado da humanidade, o exercício nos mundos virtuais, ainda que carregado inicialmente pelas mesmas grades, pode ser uma excelente ferramenta para aprendermos a nos libertar destas forças. 

Indo mais além, podemos imaginar o dia em que as nossas obras, que tanto impactam e prejudicam o meio ambiente, possam ser construídas em mundos virtuais, neste caso sem impacto ambiental. Poderemos estudar, viajar, e vencendo inclusive as barreiras do tempo e do espaço.

Quem sabe seja uma boa idéia iniciarmos também o mundo novo do qual tenho falado neste espaço virtual.. Assim, poderemos exercitar e desenvolver as aptidões que serão necessárias para sua realização sem os limites do chamado mundo real, pois este desenvolvimento depende basicamente das nossas energias sutis, de nível espiritual, que você pode exercer plenamente no mundo virtual, sem limitações. Vamos pensar nesta hipótese!

E assim um dia quem sabe, andando no metrô nós não mais evitaremos o olhar, a conexão, o contato com pessoas desconhecidas. Teremos outra consciência, descobriremos que estamos todos unidos, que não somos desconhecidos, estaremos vivendo em outro patamar, superando desta forma os obstáculos que limitam nossas vidas atualmente e que nos levam, como humanidade, para um destino incerto.

Que assim seja!

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