domingo, 10 de abril de 2011

A tragédia de Realengo

(adaptação do programa de 09/04/2011 na Rádio Mundial. Para audição, execute o player no link abaixo)

Acesso ao Áudio do Programa 09 de abril

Assim como em alguns artigos comentamos os eventos do Japão, discorrendo sobre a relação da humanidade com o planeta, a natureza, mostrando que esta está nos levando a uma situação insustentável, neste artigo quero comentar a tragédia ocorrida em uma escola no Rio de Janeiro, em Realengo na última quinta-feira, dia 07 de abril.

O acontecido no Rio de Janeiro por coincidência ou não, está relacionado com a visão que me levou a fazer o programa do último sábado, dia 02 de abril, transcrito em artigo adaptado neste blog. Neste, já com o intuito de levantar justamente este tipo de problema, tratei a questão da nossa identidade, autoimagem e autoestima, construídas em grande parte, como afirmei, sobre os fundamentos constituídos pelos nossos círculos de relacionamentos, na família, na escola, no trabalho e em outros.

É dentro da dinâmica da nossa relação com o mundo, representada concretamente pelos nossos círculos de relacionamentos, que vamos estabelecendo os parâmetros para a construção da história das nossas vidas, definindo de fato quem somos.

Pois bem. Depois da tragédia no Rio de Janeiro, encontramos uma série de depoimentos e principalmente análises tratando do ocorrido, a partir de diversas perspectivas, todas buscando iluminar as razões que levaram à tragédia.

Dentro deste cenário vamos apresentar a perspectiva que a Filosofia Ribasa dá aos fatos, seguindo a linha de tudo que temos foi apresentado desde que iniciamos nosso blog e também no programa da Rádio Mundial, e neste caso, especialmente, a linha que desenvolvemos no último artigo.

Dentro da visão da Filosofia Ribasa, como já comentado, todas as coisas estão conectadas. Nós trabalhamos dentro de uma visão quântica do mundo, ou seja, onde nada é separado. E este é o primeiro ponto, ou seja, nas análises que tem sido apresentadas sobre a tragédia, de um modo geral tem se tentado restringir ao universo do rapaz que desencadeou a tragédia, todas as variáveis que o levaram a cometer seus atos.

Acredito que a visão, inclusive muito divulgada pela mídia, já que embasada por vários psiquiatras, de que o rapaz pode ser enquadrado simplesmente como DOENTE MENTAL, ESQUIZOFRÊNICO ou vítima de um SURTO PSICÓTICO é uma explicação muito simplista, ainda que seja um caminho rápido para entendimento do ocorrido. Os rótulos, como já afirmado, constroem as prisões que impedem a dinâmica necessária para alteração da realidade.

E esta é a visão defendida pela psiquiatria, de que os “desajustados”, com diversos rótulos,  precisam receber tratamento. E quem são os que se enquadram como desajustados: hoje são milhões, inclusive no Brasil, abrangendo desde aqueles que convivem com sentimentos de ansiedade, insônia, crises de pânico, até casos de depressão profunda e outros problemas.

O grau de desajuste pode ser variável, mas o sintoma que indica a gravidade de cada caso está relacionado diretamente à incapacidade da pessoa em administrar de forma autônoma sua vida dentro do que preconiza a sociedade. Neste sentido, quanto mais incapaz a pessoa se torna, mais desajustada ela é considerada, chegando ao ponto em que pode ser afastada do convívio social através de internamento em clínica psiquiátrica.

Esta prática de internamento, no entanto, é hoje considerada como uma solução extrema, não sendo mais necessária na maioria dos casos, já que os psiquiatras dispõem de uma gama enorme de drogas desenvolvidas para lidar com situações de desajuste.
Conheço pessoalmente este processo, pois minha mãe durante 48 anos fez uso continuado, em doses cada vez maiores, destes ditos remédios, até que com 75 anos, no início do ano passado, ela sofreu uma parada cardíaca, provavelmente decorrente de uma síndrome de abstinência, vindo a falecer alguns dias depois.

Falando sobre este assunto com meu filho, ele se disse impressionado com o número de amigos, todos jovens na faixa de 23 ou 24 anos, a mesma do rapaz que desencadeou a tragédia no Rio de Janeiro, que sofrem de depressão, ansiedade, crises de pânico, e que não enxergando outra solução, lançam mão de “ansiolíticos, antidepressivos, etc.”

E vejam que no caso do rapaz da tragédia no Rio de Janeiro, apesar de certamente podermos afirmar que ele era seriamente desajustado na visão da psiquiatria, ele continuava administrando sua vida de forma autônoma. E ainda pior, em determinado depoimento uma pessoa que o conhecia e com a qual ele mantinha contato regular, afirmou que em momento e tempo algum ele expressou qualquer atitude agressiva. Assim, apesar de estranho como muitos afirmaram, o que é comum a milhões de pessoas, a princípio ele não parecia apresentar qualquer risco à sociedade.
                                              
Mas então porque ele se transformou em pivô de uma tragédia de tamanha envergadura. Além dos fatos de sua vida que estão sendo levantados e aos quais já temos algum acesso, ele deixou uma carta, ponto importante para montarmos o quebra-cabeças da história e assim quem sabe desvendarmos a gênese do ocorrido, sob a ótica da Filosofia Ribasa.

No meu entender a carta se divide em três tópicos, todos relacionados.
O primeiro diz respeito à família, à qual ele demonstra apreço, já que pede que seja respeitada a vontade do seu pai que queria passar a casa de Sepetiba para o seu nome e também pede para ser enterrado ao lado da sua mãe adotiva.

O segundo diz respeito aos animais – principalmente os abandonados, que ele considera muito desprezados e que, portanto, precisam de proteção, já que não podem se comunicar e trabalhar para o próprio sustento. Por esta razão quer que seja destinada sua casa para este fim, ou seja, a uma instituição pobre que cuide de animais abandonados.

O terceiro diz respeito às pessoas em geral, entre as quais ele cita:
- os puros – aqueles que são castos ou se mantiveram assim até o casamento, entre os quais ele se enquadra, afirmando inclusive a sua virgindade
- os impuros – adúlteros e fornicadores
- os fiéis seguidores de Deus, aos quais pede que pelo menos um ore e peça perdão a DEUS pelos seus pecados
- as pessoas generosas que financiam instituições pobres que cuidam de animais abandonados

Como vimos no artigo anterior, os nossos círculos de relacionamento são fundamentais, desempenhando papel fundamental no nosso desenvolvimento psíquico, o que significa basicamente a construção de uma autoimagem e autoestima positivas.

O primeiro círculo como falamos no último sábado é o da família. E para o rapaz o simples fato de não ter sido criado pelos seus Pais naturais, por si só pode ter sido encarado como uma primeira rejeição, podendo ter gerado um impacto negativo no seu desenvolvimento.

Pelas entrevistas concedidas pelos seus irmãos, até o momento um irmão que parece ser bem mais velho e uma irmã, esta com 49 anos, podemos presumir que ele foi adotado quando seus pais já tinham certa idade, o que é aparentemente confirmado pelo fato de que ambos já faleceram, a mãe há apenas dois anos.

Interessante perceber também que o pai, segundo cita o rapaz na carta, tinha intenção de deixar a casa de Sepetiba para ele, o que pode denotar, pelo menos aparentemente, que ele ja tinha a percepção da fragilidade do filho.

Portanto, falecidos os Pais, ele vê desfeita a base familiar, já que com os demais irmãos a relação não é próxima. Há de se verificar inclusive qual a percepção destes à época da adoção, como se posicionaram frente a esta novidade.

O segundo círculo, fundamental para o nosso desenvolvimento futuro é justamente o que construímos na escola, na qual ele não era uma pessoa de fácil relacionamento, segundo depoimento de colegas. Ele era quieto e não interagia seus colegas. Ou seja, neste círculo ele não conseguiu se afirmar de maneira positiva, devendo ter tido sérios problemas, como veremos mais adiante.

Além de perder a família, e não ter tido boa experiência na escola, também acabou fracassando no círculo do trabalho, o terceiro. Segundo consta, ele conseguiu um emprego em um almoxarifado de uma fábrica de alimentos em 2008, ou seja, antes do falecimento da sua mãe, mas acabou sendo demitido em função da baixa produtividade em agosto do ano passado.

Por último, segundo relato de um amigo, também no quarto círculo de relacionamentos, o de uma igreja, ele também não encontrou sustentação, tendo sido expulso da congregação junto com alguns companheiros em 2008. Após este episódio, segundo o amigo, ele começou a seguir uma seita na internet.

A partir deste ponto, e principalmente a partir da morte de sua mãe adotiva, todos os seus problemas certamente se agravaram, já que os principais e mais fundamentais círculos de relacionamento da sua vida estavam totalmente desestruturados, o que o levou a um  séri desequilíbrio psíquico.

Mas porque ele atacou a escola? Vários pontos são importantes:
Sendo a escola o círculo mais importante na estruturação da vida social da pessoa em termos futuros, sendo o primeiro passo para além dos limites do círculo familiar, podemos afirmar que grande parte de seus problemas estão relacionados a suas relações neste período, razão pela qual ela se transformou em alvo do seu ataque.

De acordo com uma de suas professoras, de nome Célia, “Wellington era um rapaz calado, tímido e muito atormentado pelos colegas de classe”, como também confirmou o seu amigo. Portanto, apesar dos depoimentos neutros de alguns outros colegas, o que é natural, a professora afirma categoricamente que ele foi vítima de bullying sim, assunto que comentei no último artigo, citando inclusive ataques deste tipo comuns nos Estados Unidos.

Mas apesar de ter sido vítima de bullying, algo no seu histórico da escola foi ainda mais marcante, superando os demais pontos negativos, como vai ficar claro na sua ação, já que ele não atacou professores e funcionários. Muito pelo contrário, ele mostrou claramente uma atitude seletiva, em determinado momento inclusive algo que pode ser interpretado como empatia, pois para um menino ele gritava, “relaxa gordinho, eu não vou te matar”. A utilização do termo “gordinho” pode ser resultado de uma percepção de que o menino também poderia ser alvo de bullying e que, portanto, precisava ser protegido e preservado. Em outras palavras, sua fúria tinha apenas um alvo, as meninas.

Segundo a Antropóloga Katherine Newman, cujos estudos levaram ao livro entitulado “Violência, as Raízes Sociais de Tiroteios em Escolas”, de 1999, as conclusões indicam que todos os atiradores eram do sexo masculino, garotos ou homnes, rejeitados e incapazes de lidar com suas relações sociais.

Da conclusão do trabalho da Dra Katherine, com a qual concordamos nas teses principais, podemos afirmar que este rapaz, em algum momento da sua caminhada na escola  fundamental, exatamente naquela escola, além do bullying ou como parte dele foi rejeitado por uma ou mais meninas, ou seja, pelo sexo feminino, o que é muito comum acontecer com meninos tímidos. Diante da sua frágil constituição psíquica este fato pesou significativamente no seu desenvolvimento, com desdobramentos futuros agravantes, como ficou demonstrado na sua carta.

Mas se durante o seu desenvolvimento psíquico posterior, ou seja, após o período da escola fundamental durante o qual ele foi vítima de bullying, através de outros círculos de relacionamento, ele tivesse conseguido estabelecer relações positivas, as experiências negativas que ele viveu na escola fundamental poderiam ter sido amenizadas e superadas, mesmo que jamais esquecidas. Isto é o que acontece com a maioria das crianças que passam por experiências deste tipo.

Mas a carta mostra que ao contrário do que se poderia esperar, a percepção que identificou a origem dos seus problemas naquele ambiente, certamente só aumentou em negatividade. E de fato, quando ele deixa claro que é virgem aos 23 anos, em um mundo que ele considera impuro, citando adultério e fornicação, esta uma imagem já elaborada posteriormente como conseqüência do processo, ele dá a exata dimensão de como esta rejeição foi se tornando devastadora em sua vida. É este problema que vai balizar a sua ação trágica. Chego a imaginar que sua visão de um mundo impuro, esta com viés de religiosidade radical, e neste sentido o componente é nitidamente sexual, pode também ter sido reforçada por fracassos posteriores. Apesar de ser apenas uma especulação, se este foi o caso, a sua inclusão no grupo dos imaginados “puros” representou a única forma encontrada para dar novo equilíbrio a sua vida. E até este nenhuma notícia dá conta de que ele tenha tido qualquer relacionamento afetivo, uma namorada por exemplo.

Sem a família, sem trabalho, isolado de todos e do mundo, e ao final, sem sexo e sem qualquer relacionamento afetivo, este também um ponto fundamental, já totalmente desequilibrado, ele concluiu por uma decisão radical, decidindo dar um fim a esta etapa da sua vida. Mas não sem antes buscar vingança.

Ele vai à escola e ataca as suas vítimas, as meninas, justamente aquelas que durante tantos anos povoaram sua mente como origem dos seus problemas. E esta é a razão pela qual ele não demonstra qualquer empatia com o sofrimento destas meninas. Afinal, o ato final foi meramente mecânico, provavelmente um ato imaginado e repetido na sua imaginação inúmeras vezes. Tudo foi planejado, pensado e ensaiado, como que numa peça de teatro. E ele era o ator principal, o diretor. Não poderia haver erros. Ele planejou inclusive sua morte, seu objetivo final.

E assim estava selado o destino para a tragédia de Realengo.

Mas para ele o desenrolar da história não terminou ali. No mundo, apesar de em sono profundo, restou uma mulher de valor, justamente sua mãe adotiva, ao lado da qual ele expressou o desejo de ser enterrado, fornecendo inclusive seu nome e cemitério, o que reforça seu desejo.

Para ele, estar ao lado da sua mãe no longo sono da morte representa a redenção, o descanso de que ele tanto necessita. O futuro ainda existe e é a VIDA, para a qual ele acredita será acordado por Jesus Cristo quando da sua volta, já perdoado pelo que fez em função das orações de um fiel servidor de DEUS.

Portanto, o seu plano vai muito além da tragédia que levou a sua morte e de tantos outras pessoas. Para ele, o futuro é o Paraíso, que ele chama VIDA, para qual será acordado com os seus entes queridos, principalmente sua mãe. Resumindo, ele construiu em sua mente desequilibrada um novo sentido para sua vida, uma história que não terminou na tragédia.

E assim, o ocorrido deu sentido, infelizmente, a tudo que eu quis expressar no último artigo, como alerta. Oxalá ele tivesse, como último recurso, conseguido estabelecer um círculo de relacionamentos positivo na Internet, como o fazem milhares de pessoas, o que certamente poderia ter evitado a tragédia. Mas provavelmente já era tarde.

O fato é que o desenvolvimento de uma vida, assim como a dele, se dá de forma muitas vezes aleatória, resultado de um jogo de forças que agem cegamente. De um lado, tudo que ele trouxe como bagagem para o mundo e de outro a sua relação no mundo, nos círculos que ele construiu, e que como vimos, estavam todos desestruturados.

Ele perdeu a família, teve sérios problemas na escola, não conseguiu evoluir no trabalho e também perdeu a referência religiosa tradicional. Em resumo, do ponto de vista da Filosofia Ribasa ele perdeu a própria humanidade, abrindo espaço para a tragédia.

E é desta forma cega, cheia de tormentos que nós temos visto ser conduzida a vida da humanidade sobre a terra. Um jogo brutal em que as nossas forças psíquicas ancestrais são de fato os atores do mundo e aonde mesmo diante de coisas estúpidas, como é a forma como lidamos com a natureza e com o nosso próximo muitas vezes, não conseguimos parar o processo.

A Filosofia Ribasa aponta para a necessidade de superarmos esta cegueira, tanto a nível individual como coletivo. É preciso que possamos desenvolver a nossa existência em novo patamar, superando este mundo que está chegando ao limite de sua inconsistência.

O que nos restou de positivo em nossa humanidade está sendo pulverizado. Estamos mergulhando novamente para uma espécie de barbárie. E esta onda tem invadido as escolas. Conversem com professores da escola fundamental e atestem o nível de desestruturação das nossas crianças.

Concluindo, quero afirmar que enxergar no rapaz de realengo apenas um louco, um fanático um esquizofrênico ou alguém que esteve em surto psicótico, é disfarçar o indisfarçável. Esta história envolve todos nós. Todos nós somos responsáveis pelo mundo que estamos vivendo. E desta perspectiva temos que buscar entender o que de fato aconteceu em Realengo, tomando o ocorrido como um alerta.

Nós precisamos mudar nossas vidas e desenvolver uma nova humanidade tanto dentro de nós como fora, em um mundo novo. Esta é a proposta da Filosofia Ribasa.

Abraços

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