Há poucos dias, já no ano novo, chegando à RIBASA encontrei um caminhão carreta estacionado no pátio da empresa aguardando um carregamento para Goiás. Apesar da cena comum, esta particulamente chamou minha atenção pelo modelo do caminhão, um Scania alaranjado, modelo bem antigo, provavelmente dos anos 70 ou 80.
Lembrei dos tempos em que como Diretor Comercial das Usinas Itamarati no Mato Grosso, 1999 a 2003, era responsável pela venda e distribuição de uma produção anual de 350.000 ton de açúcar e 200 milhões de litros de álcool combustível. Para o açúcar, um dos mais importantes destinos era o mercado de varejo, venda direta para Supermercados e Mercadinhos, em 12 filiais espalhadas pelas regiões Centro Oeste e Norte do país.
Para distribuição aos clientes localizados nas cidades mais próximas à Itamarati, a entrega do açúcar era feita por caminhões da própria empresa, praticamente idênticos àquele estacionado no pátio da Ribasa. Foi quando lembrei que em deterinada oportunidade, conversando com um dos motoristas da nossa frota na Itamarati, ele me relatou que quando entrava em cidades muito pequenas, era comum ver crianças correndo e gritando: “Mãe, mãe..... olha, o caminhão do circo chegou!!!!”. Isto porque até hoje no interior do Brasil, principalmente nas regiões mais pobres, os pequenos Circos Mambembes ainda utilizam estes mesmos caminhões para levarem suas tralhas e equipamentos.
Assim, por curiosidade fui conversar com o motorista do Scania que estava aguardando no pátio da Ribasa. Para minha surpresa descobri que ele mesmo já tinha carregado açúcar para a Itamarati, justamente na época em que eu estava por lá, auxiliando no transporte de transferência do açúcar da Usina para as Filiais, ganhando bom dinheiro, o que, segundo ele, já não acontece mais.
Gastei um bom tempo conversando com ele, e diante da dificuldade relatada, principalmente sobre a sua situação como empreendedor na área de transportes, voltei a refletir sobre a cadeia da economia, principalmente para àqueles que têm seu negócio próprio.
O mundo atual é dominado pelo capital financeiro, que só no Brasil, numa espécie de ciranda para poucos, movimento diariamente mais de R$ 5 bilhões na Bolsa de Valores. E para este capital, e é cada vez maior o número de pessoas ou grupos econômicos que querem viver apenas dentro desta ciranda, compondo esta entidade que todos já conhecemos como MERCADO, só existe um objetivo e foco, o GANHO FINANCEIRO. Vamos raciocinar: para este capital a qualidade do ganho se mede unicamente pelo volume, em outras palavras, a razão do sucesso é mensurada unicamente pelo aumento das margens de ganho, pois de fato, o dinheiro em si não permite qualquer outra mensuração ou realização.
Esta demanda por mais e mais resultados, entenda-se dinheiro, é tão avassaladora que não por mera coincidência os executivos americanos, como também muitos brasileiros, premiados que são com bônus diretamente proporcionais aos GANHOS que geram, passaram a realizá-los de forma muitas vezes não tão legal, origem inclusive da última crise internacional em 2008.
Vejamos o mercado de ações, estas como instrumentos que vinculam as empresas do mundo real ao MERCADO, e que são consideradas como passíveis de compra em função da perspectiva de suas valorizações futuras, resultante de seus resultados financeiros. Sendo esta a lógica, as empresas, principalmente aquelas com ações negociadas nas Bolsas de Valores, a elite no mundo dos negócios, passam a gerir seus negócios com a visão voltada exclusivamente para a geração de GANHOS FINANCEIROS, que tem que ser maiores, cada vez maiores para saciarem e manterem renovado o apetite do MERCADO.
A partir desta fonte de pressão, muitos executivos que administram empresas, principalmente as maiores e mais conhecidas, passam a perseguir obcecadamente resultados financeiros, utilizando como fonte de ganhos, políticas cada vez mais agressivas de compras e contratações, processos que mantém, em última instância, nosso amigo travado e casado quase que irremediavelmente com seu Scania de Circo.
No ano passado, diante da perspectiva de liderar a implantação de oito PCH’s (Pequenas Centrais Hidrelétricas) em Minas Gerais, realizamos um seminário com diversos fornecedores locais. Em conversas informais, muitos destes empresários relataram que para uma grande empresa Mineira, com quem já tinham longo relacionamento de fornecimento, uma nova era tinha chegado. E para esta nova era, a empresa havia contratado novos compradores, todos de pouca idade e pouca experiência, que com ganhos vinculados a resultados, passaram a impor impiedosamente novas condições aos fornecedores, muitas vezes inaceitáveis.
E é justamente esta empresa, que prefiro não nominar, que participa do grupo daquelas empresas que apesar de suas práticas devastadoras de negociação com fornecedores, vem à publico vender uma visão de responsabilidade social, ambiental, com ações vinculadas à cultura, educação, meio ambiente, etc.. Projetos estes, inclusive vale lembrar, que são na sua grande parte estruturados com base em Programas de Incentivo dos Governos em diferente esferas, que ao final ainda acabam reduzindo o pagamento de Impostos, ou seja, fazem parte da mesma mecânica do GANHO.
O Circo está montado e o espetáculo não pode parar. Especialista em andar sobre a corda bamba sem qualquer rede de segurança, o mundo vai seguindo de crise em crise, tendo como mestre de cerimônias o DINHEIRO, este sim o verdadeiro deus dos tempos atuais.
Ao nosso amigo do caminhão, praticamente na base da cadeia de fornecimento da economia, não restam muitas alternativas. Provavelmente ele continuará sendo pressionado, tendo que aceitar valores de frete cada vez menores, vivendo no limite do seu patrimônio, inclusive físico, já que obrigado muitas vezes a dirigir noite adentro.
Certamente por muito tempo as crianças vão continuar associando a visão da sua passagem com a chegada do Circo. Até o dia em que já não restará nem mesmo o Circo e possivelmente nem mesmo o espetáculo.
Abraços
Walter
Lembrei dos tempos em que como Diretor Comercial das Usinas Itamarati no Mato Grosso, 1999 a 2003, era responsável pela venda e distribuição de uma produção anual de 350.000 ton de açúcar e 200 milhões de litros de álcool combustível. Para o açúcar, um dos mais importantes destinos era o mercado de varejo, venda direta para Supermercados e Mercadinhos, em 12 filiais espalhadas pelas regiões Centro Oeste e Norte do país.
Para distribuição aos clientes localizados nas cidades mais próximas à Itamarati, a entrega do açúcar era feita por caminhões da própria empresa, praticamente idênticos àquele estacionado no pátio da Ribasa. Foi quando lembrei que em deterinada oportunidade, conversando com um dos motoristas da nossa frota na Itamarati, ele me relatou que quando entrava em cidades muito pequenas, era comum ver crianças correndo e gritando: “Mãe, mãe..... olha, o caminhão do circo chegou!!!!”. Isto porque até hoje no interior do Brasil, principalmente nas regiões mais pobres, os pequenos Circos Mambembes ainda utilizam estes mesmos caminhões para levarem suas tralhas e equipamentos.
Assim, por curiosidade fui conversar com o motorista do Scania que estava aguardando no pátio da Ribasa. Para minha surpresa descobri que ele mesmo já tinha carregado açúcar para a Itamarati, justamente na época em que eu estava por lá, auxiliando no transporte de transferência do açúcar da Usina para as Filiais, ganhando bom dinheiro, o que, segundo ele, já não acontece mais.
Gastei um bom tempo conversando com ele, e diante da dificuldade relatada, principalmente sobre a sua situação como empreendedor na área de transportes, voltei a refletir sobre a cadeia da economia, principalmente para àqueles que têm seu negócio próprio.
O mundo atual é dominado pelo capital financeiro, que só no Brasil, numa espécie de ciranda para poucos, movimento diariamente mais de R$ 5 bilhões na Bolsa de Valores. E para este capital, e é cada vez maior o número de pessoas ou grupos econômicos que querem viver apenas dentro desta ciranda, compondo esta entidade que todos já conhecemos como MERCADO, só existe um objetivo e foco, o GANHO FINANCEIRO. Vamos raciocinar: para este capital a qualidade do ganho se mede unicamente pelo volume, em outras palavras, a razão do sucesso é mensurada unicamente pelo aumento das margens de ganho, pois de fato, o dinheiro em si não permite qualquer outra mensuração ou realização.
Esta demanda por mais e mais resultados, entenda-se dinheiro, é tão avassaladora que não por mera coincidência os executivos americanos, como também muitos brasileiros, premiados que são com bônus diretamente proporcionais aos GANHOS que geram, passaram a realizá-los de forma muitas vezes não tão legal, origem inclusive da última crise internacional em 2008.
Vejamos o mercado de ações, estas como instrumentos que vinculam as empresas do mundo real ao MERCADO, e que são consideradas como passíveis de compra em função da perspectiva de suas valorizações futuras, resultante de seus resultados financeiros. Sendo esta a lógica, as empresas, principalmente aquelas com ações negociadas nas Bolsas de Valores, a elite no mundo dos negócios, passam a gerir seus negócios com a visão voltada exclusivamente para a geração de GANHOS FINANCEIROS, que tem que ser maiores, cada vez maiores para saciarem e manterem renovado o apetite do MERCADO.
A partir desta fonte de pressão, muitos executivos que administram empresas, principalmente as maiores e mais conhecidas, passam a perseguir obcecadamente resultados financeiros, utilizando como fonte de ganhos, políticas cada vez mais agressivas de compras e contratações, processos que mantém, em última instância, nosso amigo travado e casado quase que irremediavelmente com seu Scania de Circo.
No ano passado, diante da perspectiva de liderar a implantação de oito PCH’s (Pequenas Centrais Hidrelétricas) em Minas Gerais, realizamos um seminário com diversos fornecedores locais. Em conversas informais, muitos destes empresários relataram que para uma grande empresa Mineira, com quem já tinham longo relacionamento de fornecimento, uma nova era tinha chegado. E para esta nova era, a empresa havia contratado novos compradores, todos de pouca idade e pouca experiência, que com ganhos vinculados a resultados, passaram a impor impiedosamente novas condições aos fornecedores, muitas vezes inaceitáveis.
E é justamente esta empresa, que prefiro não nominar, que participa do grupo daquelas empresas que apesar de suas práticas devastadoras de negociação com fornecedores, vem à publico vender uma visão de responsabilidade social, ambiental, com ações vinculadas à cultura, educação, meio ambiente, etc.. Projetos estes, inclusive vale lembrar, que são na sua grande parte estruturados com base em Programas de Incentivo dos Governos em diferente esferas, que ao final ainda acabam reduzindo o pagamento de Impostos, ou seja, fazem parte da mesma mecânica do GANHO.
O Circo está montado e o espetáculo não pode parar. Especialista em andar sobre a corda bamba sem qualquer rede de segurança, o mundo vai seguindo de crise em crise, tendo como mestre de cerimônias o DINHEIRO, este sim o verdadeiro deus dos tempos atuais.
Ao nosso amigo do caminhão, praticamente na base da cadeia de fornecimento da economia, não restam muitas alternativas. Provavelmente ele continuará sendo pressionado, tendo que aceitar valores de frete cada vez menores, vivendo no limite do seu patrimônio, inclusive físico, já que obrigado muitas vezes a dirigir noite adentro.
Certamente por muito tempo as crianças vão continuar associando a visão da sua passagem com a chegada do Circo. Até o dia em que já não restará nem mesmo o Circo e possivelmente nem mesmo o espetáculo.
Abraços
Walter
exelente,colocaçao e uma otima visao do futuro
ResponderExcluirparabens.
Triste ver isso não é! Um geógrafo brasileiro, o Milton Santos, analisou muito bem esta questào do "poder do dinheiro" no momento atual. Gosto dele porque ele consegue ver, como você o fez, com profundidade a deturpaçao dos valores no momento atual, mas acreditar no futuro e nas possibilidades de mudança. O que, por vezes, fica muito difícil....
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