sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A Visão de Montanha rv 03

Ainda trago viva na memória a forte impressão que me causou a visão da terra do alto, da janela de um avião há vinte e três anos, quando da minha primeira viagem aérea. As pessoas, as casas, tudo parecia muito pequeno, frágil, como se fosse um mundo de brinquedo. Ainda sob o efeito do impacto, me senti irmanado com tudo e todos que via. As causas, antes tão óbvias e claras, de muitos desentendimentos e conflitos, subitamente deixaram de fazer sentido. Naquele momento, como privilegiado, tive uma visão muito ampla do mundo e me dei conta da estreiteza do vale em que de um modo geral vivemos mergulhados. Subitamente me envergonhei de mim mesmo, da minha humanidade menor. Durante algum tempo ali olhando pela janela, fiquei chorando a dor dos meus limites.

Os anos se passaram e as viagens de avião, sempre mais freqüentes, deixaram de causar aquele primeiro impacto, caindo na mecanicidade. Mas a experiência foi um marco na busca que já vinha empreendendo há bom tempo, ou seja, de buscar viver em um patamar de existência em dimensão mais ampla. E foi com aquela experiência que passei a consolidar o conceito de VISÃO DE MONTANHA, ou seja, a abordagem da realidade a partir de patamares sempre mais elevados, a partir dos quais as diferenças eventualmente conflitantes que existiam nos patamares inferiores, simplesmente passavam a ter novo sentido e inteligibilidade.

Este conceito é bastante amplo e pode ser aplicado em diversas áreas. Na TV por assinatura, por exemplo, dentro da mesma linha, em canais como National Geographic, History Channel e Discovery Channel, e mesmo eventualmente na Televisão aberta, são veiculados programas que trazem implícitos o mecanismo de Visão de Montanha. Com o desenvolvimento dos diversos ramos da ciência, os conhecimentos acumulados são trazidos a público em forma de documentários bastante interessantes. A origem do Universo, a formação das Galáxias, a formação e evolução do nosso planeta, além da história das civilizações e impérios. Todos estes são temas abordados por estes programas que vão nos conduzindo intelectualmente a novos patamares de entendimento do mundo que nos cerca, inclusive da própria história, pois de um modo geral eles remetem suas análises e argumentos tanto ao passado quanto ao futuro.

A possibilidade da Visão de Montanha, portanto, devemos em grande parte ao desenvolvimento científico, que como método, vem disponibilizando conhecimento como nunca antes na história humana. Mais do que qualquer outra coisa, somos a civilização do conhecimento e da tecnologia. Praticamente não restaram culturas à margem desta poderosa influência e realidade, ou seja, neste aspecto somos de fato a primeira civilização globalizada na história do planeta. E assim, sem sairmos do conforto dos nossos lares, hoje temos acesso a uma visão do Universo, do Planeta e de nós mesmos seres humanos que era inimaginável há 30 anos. Uma oportunidade única para desenvolvermos o que chamo de VISÃO DE MONTANHA.

Mas se por um lado conseguimos enxergar até a origem do Universo, sua história, o que nos coloca potencialmente em uma dimensão especial de vida, por outro lado somos escravos de uma realidade muito pequena.  O mundo se tornou estreito e obsoleto frente a tudo que sabemos atualmente. Trocamos nosso tempo, conhecimento e capacidade por dinheiro, em trabalhos que nem sempre representam algo significativo para nós. Posicionados em alguma parte da engrenagem que roda como se fosse a própria realidade, absoluta, somos cooptados por um sistema que se transformou em tirânico, apesar de todo seu glamour. 


As questões que nos são colocadas como desafios pela VISÃO DE MONTANHA, não compõem a agenda de prioridades do establishment, este preocupado apenas com a mecânica da economia, como no caso da última crise financeira internacional, em que governos enviaram cheques para que as pessoas voltassem a consumir, ou seja, para que voltassem a fazer a engrenagem da economia rodar. 


E este é o mote, ou seja, o CONSUMIR, algo que aceitamos, individualmente, como compensação para todo o trabalho que muitos consideram sem sentido, para o stress, a depressão, enfim, todas as mazelas que nos afligem no dia a dia. Vivemos na expectativa do próximo bem que vamos adquirir, do próximo carro, casa de praia, próxima festa ou balada, a viagem internacional sonhada ou as tão concorridas férias de verão. Estas últimas, assim como os feriados, transformaram-se em palavras sagradas, foco de atenção de milhões de pessoas durante meses e meses de planejamento, gerando ao final o conhecido caos em estradas e aeroportos.

É este estilo de vida consumista que nos mantêm presos ao que é menor em nós mesmos. No mundo atual somos incentivados à competição, ao egoísmo, à ganância, à ambição, impossibilitando o alinhamento com objetivos maiores. No frenético ritmo do consumo nos apoiamos na esperança de que a próxima aquisição, de bem tangível ou não, traga a tão necessária paz de espírito, a chamada felicidade. Mas o que acabamos experimentando com freqüência é a ressaca do final das férias, da volta ao trabalho após a última viagem, em outras palavras, um grande vazio existencial.

Temos que ampliar a dimensão da nossa existência individual. Se já o fazemos a nível do conhecimento, é preciso que esta realidade sirva como inspiração e impacte o mundo das relações econômicas e sociais. Temos que pensar uma nova ordem, que coloque a humanidade em nova perspectiva frente a seu destino. E para que isto seja possível, como primeiro passo temos que desenvolver em cada um de nós, a VISÃO DE MONTANHA, aquela que nos coloca em perspectiva frente aos desafios colocados pelo futuro, ou seja,  da construção de um novo navio, um novo paradigma.

Abraços

Walter

Um comentário:

  1. concordo com o comentario do consumismo,pois o pessoal só se preocupa com o momento o que vem depois disso é só consequencia,e vem por ai o tal do carnaval ainda credooooooooooo nao é facil.abraços

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