Vamos comentar neste artigo, a exemplo do que foi feito no último programa de rádio, as impressionantes imagens do terremoto e principalmente do tsunami que atingiram e varreram o Japão na última sexta-feira, dia 11/03/2011.
Muitas vezes, como humanidade, nos imaginamos muito poderosos, capazes de obras grandiosas quando enxergadas a paritr da nossa perspectiva. Neste sentido as imagens que nos chegaram mostraram como estas grandes obras podem ser reduzidas a pó e escombros em minutos. Enormes barcos e mesmo navios foram arrastados terra adentro. Prédios, casas, carros e aviões pareciam feitos de papel, e como miniaturas foram arrastados de um lado para outro.
Aqui no Brasil acompanhamos o desenrolar dos fatos praticamente em tempo real. Enquanto almoçava, neste dia, observei que as pessoas, atônitas, paravam de comer para assistirem as cenas de destruição mostradas repetidamente nas várias televisões espalhadas pelo restaurante.
As imagens do tsunami e da destruição causada são desalentadoras, sem dúvida. A situação é muito difícil. Em menor escala, eu mesmo já convivi com cenários de destruição, quando das grandes enchentes de 1983 e 1984 que assolaram Blumenau/SC. Após dias seguidos de enchente, a cidade viu-se tomada pela lama e pelos entulhos. Enfim, sem energia elétrica, sem água potável, em cenário de destruição, reinava entre a população um sentimento de perda, e acima de todos os outros, de impotência. Diante de tamanho poder, como seres humanos, nos sentimos pequenos e nos damos conta da nossa inequívoca fragilidade diante das forças da natureza.
Mas o que quero ressaltar é que em situações como estas, assim como também ocorreu no Rio de Janeiro, na tragédia que assolou a Região de Teresópolis, as pessoas atingidas vivem o sentimento de perda, de que “perderam tudo que tinham”. Em um depoimento, um dos moradores afirmou: “tudo que eu construí durante toda minha vida foi destruído”.
É desta dimensão de perda que eu gostaria de tratar, utilizando como pano de fundo a Filosofia Ribasa.
As grandes catástrofes, pelas suas dimensões e pelo destaque que recebem pela mídia, que se alimenta justamente delas, colocando em destaque sempre a de maior impacto sobre nós telespectadores, internautas, etc., nos colocam diante da difícil, mas inquestionável constatação de que tudo que diz respeito ao nosso dia a dia neste mundo é em última instância instável.
Qualquer construção humana, por mais forte que se possa imaginá-la, não é indestrutível. Seja por ação da natureza, como no caso das cheias, dos terremotos, dos tsunamis, seja por ação humana, como nos ataques terroristas às torres gêmeas em 2001, nós sempre convivemos com a inexorável possibilidade da perda.
É claro que somos capazes de reconstruir nosso mundo, assim como o fazem as formigas.
E cito as formigas porque quando criança, a molecada da rua em que morava costumava fabricar tsunamis contra formigueiros. A idéia era provocar inundações para ver o que acontecia ao formigueiro. E percebemos que assim como para nós, diante da destruição, restou às formigas apenas a reconstrução, que elas iniciaram logo após o desastre. E foi isto que entretia a molecada, pois dias depois, todos voltavam para constatar que lá estava novamente o formigueiro, reconstruído, e que as formigas haviam retomavam suas vidas normais.
Se esta é uma virtude, a de podermos reconstruir o que foi destruído, e temos certeza de que isto acontecerá novamente no Japão, acostumado a tantas catástrofes, temos que buscar tirar outros ensinamentos destas catástrofes. Ao contrário do que preconiza o mundo, a razão da nossa existência e a medida do nosso sucesso não se dá pelas coisas que construímos nem pelos bens que acumulamos, segundo a Filosofia Ribasa. Afinal, como vimos, tudo que construímos e podemos possuir pode ser reduzido a pó em segundos.
O nosso patrimônio, mesmo nossa saúde, sempre está em risco. E isto significa, portanto, que colocar como objetivo primeiro da vida a construção deste patrimônio, nada mais representa do que apostar as fichas em um cavalo que certamente vai perder a corrida, mais cedo ou mais tarde, de uma ou de outra forma. Pois, ainda que uma catástrofe pulverize o que possuímos, o tempo, individualmente, para cada um de nós, se encarregará desta tarefa.
E além do risco da perda, outro aspecto fundamental sobre o acúmulo deve ser considerado. Se por um lado é grande o esforço exigido para reunir os recursos financeiros necessários para a construção de um patrimônio, por outro temos que considerar que também exige esforço do mesmo tipo a manutenção deste.
Ainda na própria sexta-feira do tsunami, conversei com um amigo que me relatou estar em fase de mundança profissional e os problemas decorrentes, entre eles a necessidade de manter o seu patamar de vida, do ponto de vista financeiro. Segundo me relatou, ele convive com a pressão diária de ter que encontrar um novo rumo profissional que antes de tudo deve permitir a manutenção do patamar de vida que ele construiu para si e para sua família.
O relato veio acompanhado de um sentimento do qual apenas neste momento da sua vida ele se deu conta, o de que se tornara escravo do seu patrimônio e do seu patamar de vida. E mais, boa deste patrimônio ele construiu com base em endividamento futuro, ou seja, na presunção de que seria mantido um determinado nível de ganho financeiro a longo prazo, que permitiria o pagamento das dívidas assumidas.
Na verdade, assim como muitos de nós, o fato é que ele está construindo o seu patrimônio com um preço muito mais perverso do que se poderia imaginar inicialmente, pois afinal, em algum momento deste processo, sem considerar as reais conseqüências, ele vendeu o seu futuro, a sua própria vida, transformando-se em escravo do que possui, já que suas d;ividas correm sempre a sua frente.
Assim, muitas vezes, eventualmente também seu caso, acaba-se ficando em emprego do qual não se gosta, pois existem compromissos a pagar. A escola dos filhos, o plano de saúde, as prestações da casa ou apartamento, da televisão nova, do carro, da última viagem, tudo financiado em incontável número de prestações, além é claro, dos cartões de crédito e cheques especiais, estes campeões de juros extorsivos. Em resumo, muitas vezes contas impagáveis.
Mas todo este sacrifício tem sua compensação!!! Afinal o mundo diz que você será feliz quando tiver tudo o que é mais moderno e você se sente orgulhoso de estar construindo seu patrimônio. Um patrimônio que como vimos novamente com a tragédia do Japão, pode evaporar em alguns minutos.
Existe alternativa? Será que podemos viver de outra forma? Será que nós podemos dar novo significado a nossa vida? Nós não só podemos construir uma alternativa para esta forma de viver como temos que construí-la. E isto porque o próprio planeta já não suporta nossa fúria descontrolada de consumo e construção de patrimônios, uma filosofia que se baseia unicamente na exploração dos recursos naturais do planeta.
Toda nossa civilização está baseada no consumo e no acúmulo decorrente. E este fato está fundamentado sobre uma força que permeia todas as formas de vida no planeta, premidas que são pela necessidade de garantirem a própria sobrevivência no curto e no longo prazo. Nós como seres humanos não escapamos desta força, que também nos moldou durante todo o desenvolvimento da nossa história no planeta, sendo, portanto, componente fundamental da nossa existência ainda hoje.
A luta entre duas forças, uma de expansão, a do ser humano, e a outra de contenção, da natureza, esta se contrapondo pela imposição de desafios e grandes obstáculos à expansão humana, sempre dominou o cenário da nossa existência durante a existência dos seres humanos na terra.
Mas a história do planeta, pelas características únicas do homem, não faz muito tempo, assistiu à algo inédito, ou seja, as forças de expansão da humanidade dominarem a própria natureza. E este domínio, convivendo com as forças primitivas de consumo e acúmulo, levaram a humanidade a relação de exploração ilimitada da natureza, prática que fundamenta a vida atual e que já se mostrou equivocada. Mas o fato é que é preciso entender que este modelo, com os seus excessos correspondentes fundamenta-se em força muito primitiva da nossa natureza.
E esta projeção e apropriação de forças primitivas não se resume apenas aos aspectos de consumo e acúmulo. De fato muitas outras forças da nossa natureza primitiva estão sendo apropriadas, formatando o nosso estilo de vida atual.
Mas vale a pergunta: qual o problema destas apropriações?
Do ponto de vista da Filosofia Ribasa existem dois problemas fundamentais.
O primeiro, de foro íntimo, é o que se chama, não por acaso, de pobreza de espírito, ou seja, vivendo nesta matriz nós nos relegamos a uma vida de pobreza espiritual. E esta, mesmo no caso dos mais abastados e beneficiados pelo sistema, ou seja, aqueles que conseguem cumprir e usufruir das promessas do mundo, acaba gerando sempre algum tipo de sofrimento.
E o sofrimento, como já comentamos é a bússola do espírito, assim como é a dor para o corpo físico, ou seja, é ele que diz que estamos no caminho errado frente ao destino do nosso espírito. Neste sentido, ele é o sinal inicial da nossa possível transformação para um patamar superior de existência, objetivo para o qual existe e trabalha a Flosofia Ribasa.
Há muitos anos, no final da década de 80, depois de ter sido gerente da Caixa Econômica Federal, cargo do qual pedi demissão, eu trabalhava em uma floricultura em Blumenau.
Por necessidade do trabalho eu viajava muito para São Paulo para fazer compras para a loja. Na cidade, naquela época, eu andava de ônibus para todos os lados, com um guia de ruas embaixo do braço.
Não esqueço que em determinado dia, sentado no ônibus que passava pela Av. Juscelino Kubitschek, pela janela eu observava aqueles grandes e elegantes prédios de escritórios e expressei para mim mesmo o desejo de um dia trabalhar em um daqueles prédios, apenas para ver como era o mundo daqueles que mandam no mundo.
E assim foi, anos mais tarde, por circunstâncias muito especiais, eu entrei neste mundo e acabei trabalhando como Diretor em uma grande empresa, justamente em um daqueles prédios diante dos quais eu expressei aquele meu desejo.
De fato, o glamour e o poder são anestesiantes. Mas quero dizer que tendo passado por este mundo e convivido com muitas pessoas “importantes”, todas consideradas também como muito bem sucedidas, pessoas que eu respeito sobremaneira, pude constatar que nem todo glamour, luxo, poder e dinheiro, consumo ou patrimônio, conseguem afastar o sofrimento espiritual, que se mantém presente também neste mundo, muitas vezes de forma mais ostensiva do que naquele das pessoas mais simples.
E quanto ao meu desejo expresso anos antes, de conhecer o mundo das pessoas que mandam no mundo, eu descobri também que o mundo está sem piloto, caminhando como que no automático rumo a seu destino, do jeito que segue, provavelmente um desastre.
Portanto, o objetivo é que deixemos de viver nesta ciranda da pobreza espiritual que o mundo nos vende como sendo a vida, o caminho para felicidade e que de fato possamos assumir o nosso destino espiritual. Este é o desafio que apresento para você leitor. Que você saia do torpor imposto pelo mundo e que você desperte para uma nova vida, através de uma verdadeira transformação. E isto, é possível. Não existe nenhum obstáculo que o impeça de seguir este caminho. Muito pelo contrário, é dentro da prática do seu dia a dia que isto pode ser feito.
O segundo ponto que faz com que tenhamos que repensar a nossa caminhada, neste caso como coletividade, diz respeito ao impacto do nosso modo de vida sobre o planeta. Este estilo não é mais sustentável e vai levar a humanidade a um desastre que poderá colocar em risco a sobrevivência da nossa espécie. Ou seja, se de um lado somos sujeitos as forças e fenômenos da natureza, como ficou mais uma vez muito claro no Japão, por outro lado, estamos construindo a nossa própria destruição pela forma com que convivemos com a natureza.
E este aspecto tem relação com outro ponto fundamental dentro da visão da Filosofia Ribasa, a questão do PODER.
Se durante milênios, acuados pela natureza, buscamos sempre um maior domínio sobre as nossas condições de vida, o que por si só não é negativo, este movimento, fundamentado nas forças que nos impulsionam, permitiu o desenvolvimento de condições muito seguras para nossa existência. Tanto é que no conjunto já somos mais de 6 bilhões de seres humanos sobre o planeta.
Atingido o domínio, o poder que o permitiu, exercido dentro de parâmetros não mais válidos, nos fez passar dos limites como humanidade. Hoje nós impactamos o planeta de forma brutal, infelizmente de forma negativa, vivendo como se ainda estivéssemos em luta com a natureza, buscando a nossa sobrevivência. E diante da natureza nocauteada, ou nem tanto como vimos agora no Japão, nós continuássemos batendo, batendo sem parar. Ou seja, mesmo não sendo mais necessária a luta pela sobrevivência na forma como foi há milhares de anos, nós continuamos na mesma perspectiva.
Olhando para o lutador que aparentemente está vencendo a luta, ou seja, nós mesmos, é como se fosse o tempo de gritarmos: chega, chega, chega de bater.... senão nós vamos matá-la....
Mas será que saberemos parar? Será que enxergaremos que a luta já acabou e que nós temos que assumir nova perspectiva? Que temos que assumir novo papel na história do planeta?
É ridículo o que estamos fazendo com a natureza, com as demais espécies animais, com os rios, com o ar, com nós mesmos também. Se Deus permitir que cheguemos lá, um dia, como humanidade, vamos reconhecer este nosso tempo como a era das trevas.
Está na hora de repensarmos a forma de exercício do PODER que conquistamos. A nossa fúria adolescente tem que ser contida para que possamos recolocar a história da humanidade em um rumo positivo. O egoísmo desenfreado que permeia o mundo, a competição louca que nos envolve, enfim, o estilo de vida do salve-se quem puder, é insustentável. Temos que mudar este cenário.
A natureza já não é o nosso obstáculo. Agora ela precisa de nós em nova perspectiva. Temos que nos associar a ela e ao invés de pensarmos apenas em explorá-la, temos que assumir a missão de cuidarmos dela.
Mas isto exige uma grandeza, uma nobreza, um novo homem. Nós temos que abandonar o paradigma das forças primitivas que nos dominam para assumirmos nosso destino em novo patamar de existência. E é esta transformação, exatamente esta, que constitui o foco do trabalho para o qual aponta a Filosofia Ribasa. Nós estamos falando em uma nova vida dentro de uma perspectiva psíquica totalmente diferente, ou seja, o salto qualitativo que levará o indivíduo e a própria humanidade para um novo patamar de existência.
Afinal, mesmo que aparentemente nocauteada por nós, a natureza não está derrotada. A longa história do planeta já mostrou que ela sempre se recompõe. Portanto, e o Japão nos mostrou isto novamente, apesar da nossa vitória em alguns rounds, ao final da luta nós provavelmente seremos os grandes perdedores!
Abraços
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