sexta-feira, 13 de abril de 2012

Ribasa 6 - Nem cenoura, nem chicote

No último artigo afirmamos que no modelo de gestão da Ribasa foi extinta a função de CHEFIA como tradicionalmente conhecida. Este foi um dos aspectos que trouxe maior dificuldade tanto para compreensão dos Colaboradores quanto para assimilação prática desta nova atitude para aqueles que exerciam estas funções anteriormente e que deveriam encará-las sob nova perspectiva. Afinal, trata-se de um fundamento de toda nossa cultura, na verdade, de toda história humana, a existência da figura do chefe, dos mais diversos tipos. Na verdade  de um modo geral não conseguimos fugir dos chefes que perseguem nossas vidas.
E foi justamente na dimensão do PERSEGUEM NOSSAS VIDAS, que encontramos a motivação para extinção da chefia. Afinal, para que existe o chefe, a figura do chefe?
De um modo geral, a chefia tem como missão maior pela incorporação da visão da empresa, atuar e promover ações para que seus objetivos e resultados sejam atingidos. Assim, o chefe de um modo geral é o carrasco que se impõe sobre o grupo de trabalhadores. Ainda que esta visão seja considerada ultrapassada, substituída pela figura mais romântica do LÍDER MOTIVADOR, de fato, se os resultados não aparecerem, ou morre o LÍDER MOTIVADOR e volta o CARRASCO, ou troca-se o  próprio LÍDER / CHEFE.
Em resumo, de um modo geral, considerada a natureza humana e dos próprios negócios, existe um irremediável conflito de interesses entre  os objetivos da chefia, entenda-se empresa, e os demais Colaboradores, pelo menos em sua grande maioria. E a conciliação  deste conflito nem sempre explícito, dá-se pelo exercício do PODER, com a aplicação de todos os mecanismos envolvidos. Assim, MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM PRECISA, esta uma versão distinta do ditado que eu conhecia na sua última parte como OBEDECE QUEM TEM JUÍZO. E foi no chão de fábrica que eu acabei conhecendo esta nova versão, na verdade muito mais apropriada. Voltando à questão dos resultados pretendidos, em todos os níveis da empresa, normalmente trabalha-se com dois mecanismos.... de um lado a cenoura, ou seja, os prêmios, incentivos, promessas de aumentos de salários, promoções por reconhecimento, e do outro, o chicote, este representado por todas as punições e perdas decorrentes de desempenhos inadequados ou indesejados, entre elas a famosa xingada, corte do ponto, preterimento nas promoções e aumentos de salários,  descontos em folha, advertências, suspensões e por último, demissão. Ainda que sejam maquiados e apresentados das mais diferentes formas, estes dois mecanismos ainda são os que reinam no mundo empresarial.
Mas na Ribasa a proposta foi diferente ou pelo menos trabalhamos para isto.
A nível de cada um dos Colaboradores, na Ribasa nós queríamos chegar ao fundo do poço, ou seja, queríamos  enxergar cada profissional na sua realidade, nua e crua, para além, inclusive, da sua dimensão profissional. Afinal, no nosso entendimento, esta deveria ser a base, o único fundamento firme para podermos trabalhar na dimensão do DESENVOLVIMENTO HUMANO.
Neste sentido, conto uma história que acontecia com frequência dentro da Ribasa para que se possa entender a dinâmica desta processo.
Por trabalharmos com a fabricação de turbinas e hidromecânicos, equipamentos muito pesados, que necessitavam ser montados em obra, ou seja, nas Centrais Hidrelétricas para as quais eram fabricados, a Ribasa enviava à campo equipes de montagem que permaneciam durante meses neste trabalho. Esta turma, por estar distante da fábrica, literalmente acabava ganhando ASAS. É como se a gente soltasse os pássaros da gaiola, em todos os sentidos. O que acontecia no campo era coisa de cinema,  um verdadeiro espetáculo. Para ter-se idéia da dimensão do que acontecia, basta afirmar que apesar destes colaboradores ganharem acréscimo salarial significativo durante este período, além de todas as despesas pagas, era justamente neste período que eles geravam suas maiores dificuldades financeiras, com algumas exceções. Tanto solteiros como casados acabavam "caindo" na vida. Bebedeiras, bailões, mulherada.... enfim, uma verdadeira festa. Além disto, no caso da empresa, como o controle de frequência era feito por registro manual, as informações eram muito frequentemente adulterada, principalmente as referentes à realização de horas extras. E tudo isto apesar de terem um coordenador, também da Ribasa. O fato é que o grupo criava um mundo próprio de cumplicidade, com regras totalmente distintas daquelas aplicadas quando estavam na fábrica. As despesas, por exemplo, quando não definidos os limites pela empresa, acabavam sempre superando o razoável, com consumo de coisas as mais estapafúrdias. Em resumo, a distância e a falta de controle rígido propiciavam o ambiente ideal para a expressão da real natureza de cada um dos envolvidos. No caso da Ribasa, nestes casos, nós teimamos em não estabelecer limites. Por outro lado, alimentados pela "rádio peão" e pelos controles de despesas, nós apresentávamos estas histórias nas reuniões gerais que realizávamos semanalmente na fábrica. Sem citar nomes, nós aplicávamos a técnica do espelho, e com bom humor, contávamos as histórias e falávamos da lógica envolvida. Era quase que um teatro. A turma caía na gargalhada. Os envolvidos ficavam constrangidos e assim escapávamos da lógica do castigo e punição. Era óbvio que mesmo sem citar nomes, todos sabiam do que e de quem se tratava. E de modo geral, a "camisa" acabava servindo para muita gente. A intenção era não engatilhar os mecanismos próprios de defesa, que normalmente são desencadeados quando existe qualquer forma de reprimenda ou punição. Na verdade estes  dois mecanismos, reprimenda e punição, representam para aquele ou aqueles que infringiram ou excederam os limites razoáveis da conduta, o pagamento final, trazendo como consequência, sempre, sentimentos de natureza negativa.
Assim, da mesma forma, quando Pais punem ou repreendem filhos, eles os afastam em dois sentidos. De um lado, dos próprios Pais, e de outro, o que tem consequências mais graves, deles próprios, pois para tentar evitar estas situações negativas no futuro, eles começarão a mentir ou omitir fatos.
Mas de fato, ainda que a repreensão ou punição possam enquadrar o comportamento, isto  não significa que tenha havido uma mudança a nível de ser. Muito pelo contrário, este mecanismo cria apenas uma personalidade esquizofrênica, com cisão interna ao indivíduo entre o qjue ele passa a considerar como público, ou seja, a sua imagem, e o privado, ou seja, o que ele faz quando os mecanismos de controle estáo ausentes, geralmente na sua intimidade.
Do ponto de vista espiritual este mecanismo é devastador, pois simplesmente bloqueia a capacidade de DESENVOLVIMENTO HUMANO. Desta forma, ainda que como ser humano ele possa construir uma história, esta praticamente vai se desenvolver à margem do seu espírito, transformando sua vida em um grande vazio, percepção da qual se tornará consciente apenas quando com idade mais avançada.
Assim, no caso da Ribasa, a forma de tratamento destas questões através da técnica do ESPELHO, não trazia solução fácil ao Colaborador. Ele não pagava a conta, e portanto, ficava com o problema não resolvido. Ele tinha que carregar o peso, o que o mantinha preso à sua atitude, não permitindo que se desviasse e se escondesse atrás de sentimentos e emoções negativas, esta dirigidas a quem o havia PUNIDO, se este fosse o caso.
No próximo artigo vamos abordar a forma como este processo pode desencadear a retomada da história espiritual do ser humano.
Abraços
Walter

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