quinta-feira, 26 de abril de 2012

Ribasa 9 - Guerra ao egoísmo - rv 02

Egoísmo, assim como temos afirmado nos últimos artigos, é a denominação dada a um conjunto de processos, sentimentos e emoções correlatas que caracterizam pessoas para as quais o atendimento de seus interesses e desejos constitui o ponto em torno do qual gravitam suas vidas. 
Na Ribasa nós declaramos guerra ao egoísmo, certos de que esta guerra compõe a matéria prima, o combustível para promoção do DESENVOLVIMENTO HUMANO no sentido ESPIRITUAL. Estamos certos de que esta guerra é o ponto central das nossas vidas, sendo tudo mais MEIO, como já afirmamos, ou seja, matéria prima para o DESENVOLVIMENTO DO ESPÍRITO. E quando afirmamos que algo é MEIO, não queremos dizer que por esta razão seja dispensável. Muito pelo contrário, é justamente a existência das experiências humanas, da própria vida, constituída como MEIO, que compõe o único cenário possível para o trabalho ESPIRITUAL que defendemos,
Existiram e ainda existem linhas e escolas de desenvolvimento espiritual que defendem e utilizam como método para atingí-lo o isolamento, inclusive extremo como o caso dos eremitas. De um modo geral, para estas, o desenvolvimento espiritual está vinculado a vida em monastério. De qualquer forma, quando nós falamos em egoísmo e atendimento à necessidades individuais, na verdade estamos falando sempre de um ser em relação, ou seja, o egoísmo se contrapõe potencialmente à interesses e desejos de terceiros. Assim, e isto é muito importante, o egoísmo somente se caracteriza em situação de relação, ou seja, quando a defesa de interesses e desejos individuais pode ser conflitante com os interesses e desejos de outra pessoa. E isto acontece de fato no complexo jogo das relações humanas. E por consequência, no nosso entender, o DESENVOLVIMENTO DO ESPÍRITO se dá basicamente dentro do cenários da convivência humana. O OUTRO é parte fundamental do caminho, como veremos em artigos próximos.
No entanto, apesar de ser uma característica mais ou menos preponderante em todos os seres humanos no mundo atual, até porque apropriada pela cultura, pelo modelo civilizatório atual, principalmente na sua dimensão econômica, o egoísmo vive nas sombras, na escuridão do nosso ser e da própria Sociedade. Ele não é bem vindo e nem bem visto. E esta não explicitação e aceitação aberta do egoísmo provavelmente é resultado histórico da influência das religiões, do Cristianismo por exemplo. Mas mesmo não exposto e aceito abertamente, isto não significa que ele não predomine, muito pelo contrário, justamente por viver nos subterrâneos da vida do mundo atual, dentro de todos nós, ele se torna mais poderoso e perigoso.
Além de andar nas sombras, ele também é difícil de ser caracterizado, de ser pego em flagrante, pois esconde-se sob o manto da hipocrisia, disfarçado por uma série de artimanhas emocionais e outros argumentos. Não é comum encontrarmos pessoas que professem ou assumam defender abertamente seus interesses e desejos individuais em detrimento dos de terceiros. E ainda que disto sejam acusados, geralmente esquivam-se de forma muito astuta.
O egoísmo precisa ser capturado, agarrado pelo rabo, para que não possa escapar, para que seja trazido à luz do dia, para fora dos subterrâneos do inconsciente, como dizia Freud. E só assim ele pode ser iluminado, o que permitirá um trabalho para sua possível superação.
Esta nós afirmamos como possível, com a ressalva de que para o processo de superação do egoísmo, entenda-se DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL possa se tornar efetivo, individualmente, é preciso que haja uma decisão. E esta decisão é exclusiva de cada ser humano, assunto que abordaremos em um próximo artigo.
Mas como é que se pega o egoísmo pelo rabo? Quando falamos dos eremitas, também nos referimos aos monastérios, como centros em que se buscava o DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL. E os monastérios são exemplos de ambientes muito apropriados para se agarrar o egoísmo pelo rabo. Os monges ou seja lá qual a denominação que recebem, vivem em relação com terceiros, todos pares, e tem seus atos acompanhados praticamente durante as 24 horas do dia. Quando flagrado, o egoísmo em suas muitas manifestações, passa a ser caracterizado como pecado, e portanto associado ao diabo, razão pela qual precisa ser expulso, o que pode ser feito através da penitência, por exemplo. 
Ainda que questionáveis tanto os métodos, como a forma e os objetivos da vida monástica, para nós é importante a percepção de que neste modelo de vida o egoísmo era flagrado em suas artimanhas, sendo retirado dos subterrâneos do ser humano.
E é justamente neste sentido, com outros métodos, conceitos e objetivos, que nós construímos um ambiente na Ribasa também adequado para pegarmos o egoísmo de cada um dos Colaboradores pelo rabo. Em outras palavras, a Ribasa também se transformou em uma espécie de monastério dos tempos atuais. E era justamente isto o que de certa forma afirmávamos em nossas reuniões gerais, tão frequentes na fábrica. E aí cabe uma explicação sobre estas reuniões. 
Pelas características e necessidades do trabalho, as reuniões gerais na fábrica eram muito frequentes, durando cada uma delas cerca de 20 a 30 minutos. Eram convocadas sem qualquer agenda a qualquer momento do dia, tudo em função da urgência dos assuntos a serem abordados, e representavam, de fato, a paralisação de todas as atividades produtivas e administrativas da fábrica. Como não tínhamos auditório para abrigar todo o grupo de colaboradores, chegamos a ser mais de 200 pessoas, as reuniões eram feitas no barracão principal, em frente ao setor de PPCP (Planejamento da Produção), espaço que não tinha máquinas instaladas. No início todos ficavam de pé, transmitindo uma impressão de improviso, além do desconforto. Mais tarde tivemos a idéia de comprar aqueles banquinhos de pesca, que são pequenos e práticos de carregar de um lado para o outro. Foi uma festa, pois cada Colaborador ganhou o seu banquinho com seu nome gravado na estrutura. A partir desta decisão, todo novo colaborador ao chegar na empresa, durante a sua apresentação ao  grupo, também durante uma reunião geral, ganhava seu banquinho, além de uma vassoura, assunto que vamos abordar em outro artigo. E assim, depois da distribuição dos banquinhos, quando convocadas as reuniões gerais, todos vinham caminhando com seus banquinhos enganchados em um dos ombros. Cena muito interessante.
A idéia, portanto, era trazermos o egoísmo a luz do dia para podermos tratá-lo e utilizarmos suas artimanhas como combustível, matéria prima para o desenvolvimento espiritual dos colaboradores. E a exemplo dos monastérios, tudo era muito adequado para tal empreitada. Pois como fábrica que era, processos muito bem definidos compunham o cenário do dia a dia de todos os envolvidos. De um lado a entrada de projetos, com base em pedidos e encomendas de clientes, e de outro a saída de equipamentos com alto nível de precisão. Para se ter idéia, uma turbina hidráulica, basicamente feita em aço, que chega em forma  de chapas planas, deixava a fábrica para girar com seu rotor em até 1400 RPM (rotações por minuto). Ou seja, um nível de rotações que exige ajustes e montagens de alta precisão, de décimos de milímetros. Neste sentido, eu afirmava sempre, a Ribasa era uma verdadeira fábrica de obras de arte, um atelier, e os colaboradores, principalmente os do chão de fábrica, seus verdadeiros artífices. Assim como turbinas hidráulicas, a Ribasa também fabricou, como empresa terceirizada, peças para Petrobrás, para plataformas de exploração submarina de petróleo, além de equipamentos para fábricas de papel, ração animal, cimento e tantos outros setores.. 
E temos que considerar que grande parte das encomendas e pedidos, ainda que possivelmente similares a projetos anteriores, eram sempre projetos especiais, específicos, exigindo um altíssimo nível de detalhamento e atenção para sua fabricação, ou seja, não tínhamos produção seriada na Ribasa. E ainda assim, durante os quatro anos de existência da empresa, tempo em que durou o projeto do qual estamos tratando, a qualidade dos produtos entregues pela Ribasa foi certamente o seu ponto forte, amplamente reconhecido pelos seus clientes. Este foi o grande patrimônio da empresa durante sua existência, não tendo sido esta a dimensão que acabou levando ao encerramento de suas atividades em 2011.
Com o processo controlado, necessariamente, já que o produto final exigia alto nível de precisão, era justamente durante a fabricação de cada projeto, em cada uma de suas etapas, ou seja, desde o recebimento dos desenhos, detalhamento, compra de matéria prima, preparação e corte das chapas, calderaria e solda, usinagem, jateamento pintura, montagem e ajustes finais, inspeções de qualidade (durante todo o processo) e por fim expedição, que o egoísmo mostrava suas garras. E este mostrar suas garras se caracterizava nas falhas de processo. Em outras palavras, ele mesmo não se mostrava, mas deixava suas marcas. E justamente quando estas marcas eram encontradas que nós as rastreávamos para agarrá-lo, o egoísmo, e tirá-lo das sombras.
Assim, quando qualquer falha de processo acontecia, pelo menos as mais importantes, nós voltávamos no tempo, rastreando as diversas etapas do processo, envolvendo neste processo todos os colaboradores arrolados no processo. E assim, quando bem sucedidos, nós conseguíamos chegar ao ponto em que as explicações técnicas já não conseguiam mais dar conta dos fatos, mergulhando então no fator humano, na maioria das vezes nos processos relacionados ao egoísmo.
A intenção e o objetivo deste movimento não era a punição, de forma alguma. A punição, como jã comentado em artigo anterior, representaria o pagamento do que chamamos de erro, desencadeando sentimentos e emoções negativas, reforçando o próprio mecanismo do egoísmo em seus aspectos mais negativos.
A nossa intenção era respeitar o processo que havia levado o Colaborador ou Colaboradores à falha. Não queríamos ASSUSTAR o egoísmo. Queríamos que ele viesse a tona e se sentisse acolhido na luminosidade do dia. Não no sentido de que a sua existência deveria ser reforçada, mas no sentido de mantê-lo na superfície para ser, ele mesmo, fundamento, base para o passo ESPIRITUAL do comportamento, assunto que vamos abordar nos próximos artigos.
Sds
Walter
waltrisc@uol.com.br

2 comentários:

  1. e por fim expedição, que o egoísmo mostrava suas garras.

    SR:Walter desculpe mas por curiosidade,por que na expedição dava problemas?

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  2. Caro Luis,
    Eu não estava me referindo especificamente à Expedição, mas a todos os setores da fábrica, já que os problemas poderiam ser detectados em todos eles. Ok?

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